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Fique atento a um novo modo de consumir notícias

O meio impresso perdeu leitores não só por conta do apelo que o meio digital tem entre os jovens. Aliás, considerar que digital é coisa de jovem - em pleno 2016 - não é só um atestado de ignorância, mas também um atestado de cegueira, afinal é só olhar para os espaços públicos e notar como praticamente ninguém mais lê jornal ou revista. Agora estão todos “lendo” um celular.

Mas como disse, a questão não é só o digital. O jornal por exemplo, vem perdendo leitores pois independentemente da idade, quase ninguém mais tem aquele hábito antigo (característico do jornal) de fazer uma leitura tranquila pela manhã, antes de sair para o trabalho. O mercado acelerou o ritmo do homem. Hoje já acordamos trabalhando. Tem gente que acorda e imediatamente já está respondendo whatsapp do trabalho, mesmo antes de sair da cama.

E vou além, se não temos mais tempo para ler um jornal impresso, quem consegue, em meio à correria do nosso dia a dia, parar por cerca de uma hora para ler com calma um portal de notícias? Minha hipótese é a de que está diminuindo o número de pessoas que acessam a página de entrada dos sites de notícias.

Nem por isso as pessoas andam desinformadas. Não é essa minha conclusão. Apenas o comportamento delas que mudou. As pessoas continuam consumindo notícias, mas ao longo do dia, de forma fragmentada, através das redes sociais.

Alguns apontamentos ajudam a comprovar essa minha hipótese. O primeiro deles é você próprio. Observe quantas notícias você ficou sabendo por conta de um “post” compartilhado nas redes e só então você entrou no site que traz a matéria completa. Note como o hábito de acessar a página de entrada do seu jornal preferido perde lugar para um novo comportamento. Quem é assíduo das redes prefere “seguir” determinado jornal numa plataforma de redes sociais em lugar de acessar o seu respectivo site.

Um indicio desse comportamento é visível quando comparamos o volume de consultas ao Google pelos termos “site Estadão” e “Facebook Estadão”. Nota-se claramente que ao longo dos anos, a procura pelo link e consequentemente, o interesse por acompanhar o Estadão nas redes cresce incrivelmente e torna-se bem maior do que aqueles que procuram o portal na internet.


Resultado semelhante encontramos se compararmos outros veículos de mídia como “site G1” e “Facebook G1”, ou então “site Le Figaro” e “Facebook Le Figaro”.






Outro dado que complementa essa minha hipótese: o relatório Mídias Sociais 360o (publicado trimestralmente pelo Núcleo de Inovação em Midia Digital da FAAP em parceria com a Socialbakers) mostra que no último trimestre de 2015, as principais páginas brasileiras no Facebook de mídia/notícias tinham em média, mais de 3 milhões de curtidas. No segundo trimestre de 2014, eram cerca de 2 milhões de curtidas; ou seja, ao longo do ano só cresceu o número de pessoas interessadas em acompanhar as publicações das páginas de midia/notícias no Facebook.

Vale acrescentar também que esse novo comportamento está diretamente relacionado à migração do consumo de informação do computador de mesa para os dispositivos móveis. Segundo relatório “Brasil Conectado” publicado em 2014 pelo IAB Brasil, o uso da internet a partir de computadores de mesa, seja em casa, no trabalho ou na escola, vem caindo desde 2012. No mesmo período, só cresce o uso da internet por dispositivos móveis.

Com isso, meu argumento é que no celular, a consulta por informação é fragmentada, pontuada pelos intervalos do cotidiano, ou seja, surge um novo comportamento de consumo de midia.

Quem trabalham com comunicação deveria observar atentamente tudo isso. Principalmente quem trabalha com mídia. É preciso olhar para esse novo comportamento na hora de montar um plano de mídia. Não basta apenas descobrir qual portal ou rede social seu público utiliza. É preciso olhar atentamente como se dá o consumo de informação ao longo do dia daquele determinado público, para descobrir qual horário exato o “post” deve entrar na rede. Também é preciso identificar em quais páginas específicas do portal de notícias deve-se anunciar ao invés de dispender uma grande verba anunciando na página de entrada do portal.

Para encerrar, outro hábito que está mudando: o mesmo relatório do IAB Brasil citado antes, aponta uma forte tendência de queda no consumo de rádio dentro do carro. Minha hipótese para essa queda é o crescente uso das plataformas de streaming de música como Spotify, Apple Music, Deezer e Tidal. Provavelmente essas plataformas são as novas companheiras do motorista para enfrentar o trânsito. Fique atento a isso. Já pensou em criar uma ação de comunicação envolvendo o Spotify e motoristas na hora do rush? Pode dar muito certo.






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Publicado originalmente na coluna "Opinião" da edição impressa do jornal Meio e Mensagem, ano XXXVII, núm.: 1698, pág. 08. São Paulo: Editora Meio e Mensagem, 22/02/2016.

Veja a média salarial do mercado ou de uma empresa em particular

Mesmo que você seja da turma que odeia segundas-feiras, acredito que a plataforma Love Mondays vá interessar. O motivo é simples: ela revela dados da relação entre empresas e seus funcionários que até então eram difíceis de ter acesso. Qual o salário médio de um determinado cargo? Quanto uma empresa específica paga para cada cargo? Qual a opinião de quem trabalha lá?

Love Mondays é um ótimo exemplo da revolução que as redes sociais estão promovendo na percepção da nossa sociedade sobre o limite entre o que é público e o que é privado.

Por volta de 2003/2004, o Orkut causou bastante impacto no Brasil por tornar público, entre outras coisas, qual era a rede de relacionamentos de uma determinada pessoa. Revelou um dado que era difícil de ser obtido. Na época, algumas pessoas consideravam essa informação como algo de cunho privado e tiveram resistência em relação à essa invasão de privacidade que as redes sociais propunham.

Love Mondays quer tornar visíveis algumas informações que no mercado profissional nem sempre são obtidas facilmente. Deve promover uma grande revolução na relação entre empregado e empregador, com direito a grande resistência de muitas empresas. Se sobreviver às críticas e processos jurídicos, será considerada daqui alguns anos como uma importante personagem no processo de transparência do mercado.

É uma ferramenta importante para quem planeja sua carreira e está pensando em trocar de cargo e empresa. Estruturada por dados inseridos pelos próprios empregados, Love Mondays tende a ganhar importância e relevância conforme aumenta sua base de usuários. Havendo bastante investimento na divulgação da plataforma, não tenho dúvidas que essa startup brasileira vá causar ainda bastante barulho.




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Publicado originalmente no "Update or Die", em 11/05/2015.

A reclamação dos filhos agora é que seus pais não desgrudam do celular


Basta uma pesquisa de campo informal para notar: agora é a geração acima dos 45 anos que não larga do celular. 45, 50 ou 60 anos, não importa. Adultos completos. Não saem do celular. É o que ouço falar dos seus respectivos filhos.

Não quero dizer com isso, que os jovens abandonaram o mundo digital e jogaram fora seus iphones. Não, claro que não. Porém, eram eles - os jovens - acusados de uso exagerado das redes sociais e dos dispositivos móveis. Pois bem, vá num restaurante qualquer e observe os frequentadores com mais de 45 anos. É revelador. Não são – somente os jovens – que estão utilizando compulsivamente o celular.

Há nessa reflexão, dois pontos a considerar:

FATOR COMPORTAMENTAL – não podemos negar que nossa sociedade caminha para uma mesma direção, independentemente da idade que temos. Jovens, adultos ou idosos, estamos todos imersos – cada vez mais profundamente – numa sociedade em que a relação com o mundo se dá através da mediação da informática (faz tempo que você não vê essa palavra, hein?), em especial dos dispositivos móveis. Somos pressionados a atender todas os alertas e notificações que pipocam no celular, nos “wearable devices” etc. Em concomitância com outros fatores contemporâneos como o individualismo e o narcisismo exacerbado, acabamos por fim nos deparando com cenas um tanto incoerentes, como por exemplo, um casal jantando no restaurante, porém sem conversar entre si. Cada um atento ao seu próprio celular.

FATOR TECNOLÓGICO – parece-me que é fácil concluir neste aspecto que o surgimento de um novo meio de comunicação ou uma nova tecnologia da comunicação, obedece uma curva de adoção que invariavelmente atinge um pico em que é possível notar o uso exagerado da tecnologia e com o tempo, essa curva tende a descer até um ponto de equilíbrio. Esse comportamento se repete a cada geração, de acordo com a época em que ela foi adotada por aquele conjunto de pessoas. Em resumo: os jovens mergulharam na tecnologia e nas redes sociais mais cedo; alcançaram o pico da curva de adoção em que o uso excessivo causou um momento crítico e hoje é possível notar que os próprios jovens, discutem entre si os limites dessa relação. Chegaram até a inventar jogos que os proíbem de usar o celular quando estão juntos num bar ou na casa de um amigo. Aqueles que possuem mais de 45 anos, parecem passar agora por um processo muito semelhante.

Dentro dessa reflexão toda, é preciso considerar que o mundo caminha contra a possibilidade da “desconexão”. O crescente mercado dos “wearable devices” e da “internet das coisas” nos faz cada vez mais “conectados” e disponíveis para todas as variedades de “notificações” que as redes sociais e o “big data” podem oferecer. É preciso muita maturidade e senso crítico para viver nesse ambiente. Estamos prontos?


Crédito: Stephen McCulloch

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Publicado originalmente no "Update or Die", em 09/09/2014.

Panóptico Social: vigiados pelos próprios amigos


O avanço tecnológico ampliou as possibilidades de controle e vigilância. Máquinas de vigilância são implantadas em ambientes públicos e privados. Em cada esquina, em cada portaria ou em cada quarto de bebê.

Esse cenário já foi apontado faz tempo. O filósofo francês Michel Foucault utilizou a arquitetura de uma prisão para explicar o princípio do panóptico, em que é possível instalar nas pessoas o sentimento de constante vigilância sem necessariamente ver quem o vigia. O modelo do panóptico não estaria presente só na prisão, mas também em hospitais, escolas, fábricas etc. Ele chamou esse modelo de “sociedade disciplinar”, pois fora desenhada para moldar a sociedade conforme interesses do poder maior.

Mais recentemente, Zygmunt Bauman lança a ideia de pós-panoptico e de vigilância líquida para explicar a sociedade contemporânea. No pós-panóptico não há mais qualquer necessidade de um olhar centralizador para nos sentirmos vigiados. Não podemos mais ver claramente os pontos de vigilância. Somos controlados e vigiados a cada movimento. A disciplina se dá a partir da disposição do próprio ser. Deixar-se vigiar é uma questão de segurança própria.

Bauman é responsável pela ideia de modernidade líquida. Ele vai dizer que valores importantes para a sociedade como amor e privacidade não possuem mais uma definição tão sólida como em outros tempos. Claro, os valores são definidos e redefinidos ao longo do tempo, mas na sociedade contemporânea, ele entende que os conceitos são agora mais voláteis, maleáveis. Chegam a ser banalizados. O amor não é mais sólido. É líquido. Eu diria que hoje, há espaço para “diversas formas” de amor. Ama-se qualquer um. Ama-se qualquer coisa. Ama-se muito tudo isso.

Nesse contexto nasce também a ideia de vigilância líquida em que questões como anonimato e exposição são constantemente discutidas justamente por serem noções instáveis, flexíveis. Ele vê a big data como uma fonte inesgotável para a vigilância líquida, pois todo e qualquer rastro de uma pessoa é passível de ser identificado e capturado a qualquer momento.

Um bom exemplo foi o caso Snowden. Em 2013, Edward Snowden foi personagem importante do cenário político mundial por tornar público um projeto americano de vigilância digital. Snowden participava de um projeto que coletava informações privadas de emails e diversos outros rastros digitais de importantes políticos internacionais.

Note que há por trás um Estado exercendo o poder de vigilância não somente sobre uma nação, mas sobre todo o espectro global. Apesar dos conceitos propostos serem bastante amplos, é possível ver que no discurso de Foucault e Bauman há sempre um estado ou uma instituição exercendo o controle e a vigilância.


Panóptico Social

Interessa-me nesse momento, levantar outra vertente sobre o controle da sociedade em que faço uso da evolução do pensamento explicitada nesse texto - que nasceu em Foucault e se desenrola até Bauman - para lançar a ideia de panóptico social.

Não pretendo desmerecer a extrema importância de atentarmos para os mecanismos de vigilância existentes na era digital que propiciam o controle onipresente do estado sobre o povo, mas deixo essa responsabilidade para Bauman e seus seguidores.

O termo panóptico social vai em outra direção; quer realçar um cenário em que a sociedade exerce um papel de autocontrole e vigilância, desenhado a partir de um movimento concomitante da evolução da tecnologia digital e o advento das plataformas de relacionamento.

De um lado, surgem os dispositivos que permitem filmar, identificar, registrar e rastrear dados sobre si próprios. Do outro, surgem plataformas que permitem a essas pessoas, compartilhar essas informações com seus pares. Note que há aqui, portanto, um diálogo importante entre a disposição pela exposição da sociedade e o desenvolvimento de plataformas de redes sociais.

Assim como na proposta de pós-panóptico de Bauman, já não existe mais a referência arquitetônica, pois tanto não há espaço físico, como não há um centro de vigilância. São apenas publicações em redes sociais. Ainda assim, há a constante impressão de ser vigiado.

Porém, quando utilizo o termo panóptico social quero ressaltar o poder estabelecido pela própria sociedade de controle sobre si, sem uma referência a um poder político ou religioso.

No panóptico social, é a própria sociedade que começa a definir seus limites. Isso é visível nos comentários que acompanham todas as publicações feitas diariamente pelos usuários nas redes sociais.

Ela colabora com a construção - em tempo real - de uma noção de moral e ética que é latente o maleável, por isso, vai de encontro com a proposta da sociedade líquida de Bauman.

As redes sociais são agentes desse apoderamento da sociedade. É a partir delas que um usuário comum exerce sua tarefa de vigilância sobre os atos dos seus “amigos”.  É sobre esse leito que estamos redefinindo a noção de privacidade, por exemplo.

Farei uso de um exemplo. Considere o fenômeno recente conhecido como “selfie”. O ato de registrar uma imagem fotográfica de si próprio e publicá-la na internet é um movimento natural de uma sociedade narcísica. Apesar da cultura de cada povo ter uma aceitação diferente para esse ato, pode-se dizer que se trata de um fenômeno global.

Além da publicação, há ainda dentro desse fenômeno o interesse pela propagação dessa imagem. Vê-se, portanto, que a disposição pela exposição é um conceito bastante importante e constantemente discutido.

O selfie mais famoso e mais compartilhado até agora aconteceu durante a cerimônia de premiação do Oscar 2014, nos EUA.

A apresentadora e comediante americana Ellen DeGeneres chamou alguns atores que estavam na plateia para fazer uma foto ao estilo “selfie”. Na sequencia, convocou a sua audiência para propagar a imagem pelo Twitter. Em menos de 45 minutos a imagem foi compartilhada mais de 1 milhão de vezes. No dia seguinte, já eram mais de 2 milhões de compartilhamentos.

Porém, engana-se aquele que vê esses números e pensa que a noção de exposição e o fenômeno do selfie é algo completamente aceito e estabelecido. No contexto do panóptico social, há sempre usuários prontos para criticar e a partir disso, reacender a discussão coletiva sobre as bases morais e éticas desse fenômeno.





Ambientes Digitais X Espaços Físico
O que acontece na rede se desenrola no cotidiano da sociedade, também fora da rede. Não podemos esquecer que o mundo digital que construímos não está descolado da realidade. Ele é apenas um espelho que amplifica e torna visível aspectos - algumas vezes pouco evidentes -  de nós mesmos.

Um exemplo para clarificar é o caso da professora carioca que publicou em seu perfil no Facebook uma foto criticando a roupa de outra pessoa que estava no mesmo ambiente que ela.

Mais uma vez, um exemplo típico do panóptico social em ação. O curioso deste caso é que a imagem propagou de tal maneira que chegou até o próprio indivíduo que aparece na foto, que por sua vez, ameaçou abrir um processo jurídico contra a autora da imagem. Assim, reacende a discussão sobre privacidade e como disse, reafirma minha tese de uma sociedade que está em constante reformulação de seus limites.

Claro que a renegociação das relações e valores de uma sociedade é um movimento constante e natural, porém na sociedade contemporânea, o surgimento das plataformas digitais não só acelerou esse processo, como tornou visível.


Anonimato
Para finalizar, é importante observar que o panóptico social está diretamente associado a um contexto em que a privacidade e a exposição são conceitos amplamente discutidos sendo muitas vezes, incompreendidos e banalizados.

Em tempos de panóptico social, o anonimato ganha status de luxo. Torna-se desejo de consumo. É bem provável que os novos produtos de consumo venham amarrados à ideia de anonimato. Logo veremos ganhar popularidade, plataformas sociais que lidam com a relação entre exposição e anonimato. Uma "exposição anônima".

Há algumas experiências nesse sentido como as plataformas Secret, WUT e Whisper. Eu ficaria de olho nessa tendência.

Manter-se anônimo dentro ou fora da rede sempre foi um desejo daqueles que lidavam profissionalmente com a exposição excessiva. Agora que vivemos num mundo em que todos já alcançaram seus 15 minutos infindáveis de fama, o anonimato torna-se um recurso escasso e objeto de desejo.



Sugestões de leitura complementar:

  • CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
  • CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: A era da Informação. 18ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2005.
  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Ed. Vozes, 2007. 
  • ZYGMUNT, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
  • ZYGMUNT, Zygmunt & LYON, David. Vigilância líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2014. 


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Publicado originalmente no "Update or Die", em 02/08/2014.

Um novo modelo de negócios para a indústria da música

Spotify é lançado oficialmente no Brasil

Gustavo Diament (Spotify LATAM), durante evento de lançamento. 


O lançamento oficial do Spotify no Brasil vai além da oferta de uma nova plataforma de entretenimento para o brasileiro. É uma oportunidade para estimular e popularizar um novo modelo de negócios e até mesmo de consumo da música.

No princípio, o meio digital surgiu como uma catástrofe para a indústria musical. Bandas, gravadoras e distribuidoras viram-se num beco sem saída frente à cultura do compartilhamento. O meio digital mostrou que a mídia física (cd, vinil, k7 etc) estava com os dias contados e que a distribuição em rede era inevitável. Nesse período a pirataria reinou.

Apesar de não ser a única a trabalhar num novo modelo, em 2003 quem ganhou destaque foi a Apple com o lançamento da loja online “iTunes Store”. O consumidor começou a experimentar a possibilidade de comprar o arquivo digital do álbum de uma banda ou mesmo só de uma das músicas do álbum ao custo de U$0,99 por música.

Na época, a popularização da compra online de músicas por U$0,99 deixou evidente um caminho possível para a indústria musical. Hoje vivemos uma nova fase dessa evolução que vem de encontro com tendências como a disposição de dados infinitos na “nuvem” do meio digital e a ideia de não consumir mais a partir do conceito de “possuir” mas de “usufruir”.

Ao invés de comprar e guardar para si música por música, o Spotify faz outra oferta às pessoas: ele oferece uma plataforma em que o usuário pode ouvir toda e qualquer música que desejar, quantas vezes quiser, pagando por isso uma taxa mensal. Ou se preferir, pode optar por um pacote gratuito, em que a remuneração é feita a partir de espaços publicitários.

É o Netflix do mundo da música. E provavelmente, vai provocar o mesmo estardalhaço que o Netflix tem causado no mercado audiovisual.

Marcelo Jeneci, Fernanda Takai e Gaby Amarantos com Gustavo Diament.

No campo da música, o Spotify não está sozinho nem foi o primeiro a chegar no Brasil. As plataformas Rdio, Deezer, Napster, entre outras já veem ganhando muitos usuários brasileiros e ajudando a construir essa cultura de consumo a partir do pagamento de uma taxa mensal.

O Spotify é oferecido em dois formatos: um pacote gratuito que permite ouvir online todas as músicas (mas não oferece a possibilidade de ouvir off-line) e um pacote premium que não possui nenhuma limitação e desabilita os anúncios publicitários entre uma música e outra. No Brasil esse pacote premium vai custar R$14,90/mês (por enquanto é vendido apenas através de pagamento internacional no valor de U$5,99/mês).

Minha curiosidade está na possibilidade de plataformas como o Spotify mudarem o hábito de consumo de música da sociedade.

O Spotify estimula um consumo mais personalizado, curado e social. Você pode ouvir uma seleção de músicas criada por você ou criada colaborativamente a partir das sugestões de amigos seus.  Se preferir, você pode ouvir seleções criadas por outras pessoas ou mesmo personalidades/ícones de diferentes áreas.



Você pode usar o Spotify no seu computador; em casa ou no trabalho, ou pode usar o aplicativo para celular e conectá-lo com o equipamento de som de sala de estar ou do carro. Assim, a plataforma está presente em diferentes momentos do seu dia.

Em particular, durante minha experiência de uso, fiquei bastante impressionado com a eficiência da transmissão online de músicas usando a internet do celular. Tenho utilizado diariamente o Spotify enquanto estou no carro e o impacto no consumo do pacote de dados do celular foi menor do que eu imaginava.

Por essas e outras, o Spotify é hoje a segunda maior fonte de receita da indústria da música no mundo. Em menos de 6 anos de vida, já possui mais de 40 milhões de usuários ativos no mundo. Destes, 10 milhões são assinantes da conta premium. Já são mais de 30 milhões de músicas disponíveis e 1,5 bilhão de playlists criadas dentro da plataforma. A cada dia, 20 mil novas músicas são adicionadas. Para quem é do mercado da música, parece-me um modelo de negócios que deve ser acompanhado de perto.





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Publicado originalmente no Update or Die, em 28/06/2014.

Privacidade na era do Big Data

O que você faz entre quatro paredes não interessa a mais ninguém além de você,
por isso não deveria ser registrado no celular.

A internet e as redes sociais propuseram uma nova dinâmica para o compartilhamento de informações em nossa sociedade. Esse dinamismo parece estimular uma “exposição voluntária” do indivíduo. É muito comum ver pessoas tornando públicas informações que décadas anteriores eram consideradas “privadas”.

Na era do big data, diversas informações sobre um mesmo indivíduo são registradas na internet. Há diferentes desdobramentos para um fato tão importante como esse. O mais óbvio é a possibilidade de rastreio e vigilância de uma determinada pessoa. O ex-funcionário da CIA, Edward Snowden, tornou público em 2013, um programa de vigilância do governo americano. Sob certo aspecto, é válido considerar que antes mesmo do governo, a própria sociedade passa o dia vigiando e controlando os passos digitais de seus amigos pelas redes sociais.

A disposição pela exposição é o artifício por trás de qualquer rede social. Esse artifício também está presente em muitas das campanhas de comunicação e ações inovadoras que apresentam características colaborativas e interativas. Por trás há sempre algum aspecto que envolve a exposição do consumidor. Hoje o consumidor quer participar da propaganda, algo pouco comum antigamente.

Esse é o cenário atual, é onde nos encontramos. Não pense que você está isento, escondendo-se atrás das configurações de privacidade do Facebook. Se você gosta de brincar de Instagram no seu iPhone, então você faz parte dessa sociedade da (auto)exposição. Manter o perfil do Instagram fechado apenas restringe sua audiência, nada mais do que isso. Você não tem controle completo sobre sua imagem na rede. Na era do big data, há mais rastros digitais sobre nossas vidas do que imaginamos.

Numa rápida consulta à web, todos saberão em qual classificação um determinado jovem estudante entrou na universidade. Nos anos seguintes, se ele ganhar algum concurso, isso também ficará registrado na internet. Quando casar, com certeza o fotógrafo da cerimônia aproveitará algumas fotos para o seu portfolio online. O videomaker publicará no Youtube. Se um dia ele participar de um processo judicial, isso será registrado na internet. Conclusão: você estará na web, seja por vontade própria, ou não.

Assim, não é a configuração do seu perfil que vai salvar sua reputação, mas a consciência crítica de tudo que é publicado. Vou mais longe, a consciência dos seus atos públicos. O que você faz entre quatro paredes não interessa a mais ninguém além de você, por isso não deveria nem ser registrado no celular. Já o que acontece além dessas paredes pode cair na rede com mais facilidade, mesmo sem a sua intenção. Esteja ciente disso.


Crédito da imagem: John Morgan
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Publicado originalmente no blog Just Cool em XX/05/2014. 


Um portal de notícias que se adapta ao seu interesse


É fato que o jornalismo vive uma difícil fase frente às novidades da era digital. Poucos jornais e revistas descobriram como obter sucesso no ambiente digital.

A maioria ainda vive uma fase que Marshall McLuhan já previu nos anos 60, quando estudou o surgimento de novos meios de comunicação: eles costumam ser ocupados por conteúdos com formato antiquado, oriundos dos meios anteriores.

Na internet, vemos acontecer algo do gênero: os portais dos importantes jornais e revistas do Brasil são uma mera replicação do seu formato impresso. Isso não funciona, pois além de estarmos num meio que tem características distintas dos meios anteriores, também estamos à frente de uma nova sociedade.

Nossa sociedade vive uma constante pressão por produtividade. Poucos possuem tempo para ler o jornal completo toda manhã. O estímulo pela cultura da economia e da sustentabilidade faz as pessoas acreditarem que assinar um jornal impresso é um desperdício, já que não conseguirá aproveitar por completo. Além disso, fica a impressão de que nem todas as notícias ali presentes são relevantes, pois a sociedade da cultura digital não aceita mais passivamente o que aparece à sua frente. Ela quer ver seus interesses participando e colaborando com o processo de comunicação.

Além da posição mais ativa, desenvolvemos ao longo das últimas décadas o desejo pelo consumo individualizado da informação. Não só trocamos o telefone pelo celular, mas também deixamos de assistir todos juntos um mesmo canal de TV na sala e passamos a consumir canais diferentes de TV, cada um num cômodo diferente da casa.

Na internet nem se fala. A possibilidade quase infinita de acesso à informação nos faz navegar à deriva em meio ao excesso de informação; e até agora, ninguém soube aproveitar adequadamente esse cenário.

Alguns portais de notícias experimentaram a possibiliade da personalização da página de entrada, em que é possível escolher as suas editorias de interesse, porém, em tempos de redes sociais, não é exatamente esse o nível de personalização que esperamos.

Como garantir a relevância de um portal de notícias na era da big data? Aqui vai a resposta: considere um portal que ao ser acessado, ele analisa os seguintes dados (claro, com a sua devida autorização prévia):
- seu histórico de navegação e notícias que leu nas visitas anteriores;
- sua ficha de cadastro no portal e todas as informações que disponibilizou lá (endereço, idade, faixa etária etc);
- os assuntos que você costuma comentar em seu facebook e twitter;
- as fanpages que você curtiu e as pessoas que você segue;
- os locais onde já fez check-in e o local exato em que você está;
- etc.

Coloque esses dados para serem processados e filtrados por um algorítimo que considere também, uma nota de relevância para todas as notícias que os jornalistas produzem para o portal e pronto, temos um site de notícias extremamente adaptado aos interesses de cada pessoa.

Ninguém mais acessará uma página de entrada com as mesmas notícias na manchete. E a classificação que o jornalista indica para cada reportagem vai garantir que o leitor não fique fechado em um círculo vicioso de informação sem ter acesso aos fatos importantes do mundo.

Eu pensei que o primeiro a lançar algo semelhante ao que acabei de citar seria Jeff Bezos, CEO da Amazon. Acredito que ele esteja preparando algo do gênero para o lançamento de um novo “The Washington Post”.

Porém, o portal Terra saiu na frente. Dia 31 de março será lançado em alguns países, dentre eles o Brasil, um novo portal do Terra que utiliza um algoritmo bastante semelhante ao que citei. No mês seguinte, esse novo portal será lançado para todos os demais países onde o Terra atua.

A plataforma de gerenciamento de todo conteúdo foi desenvolvida pela Adobe e pretende revolucionar a forma como o usuário consome informação nas redes. A interface do portal também foi bastante modificada. Agora, a proposta é uma navegação com poucas páginas e rolagem infinita. A página de entrada terá uma sequencia infinita de matérias, como a “timeline” de uma rede social.

A partir da próxima semana o Terra prometeu iniciar a distribuição de senhas de acesso para um pequeno grupo de usuários do portal, sorteados ao acaso. Este grupo será convidado a conhecer em primeira mão o novo portal.

Ao que tudo indica, o consumo diário de notícias não será mais como antes. Não se trata apenas da troca do suporte (do papel para o digital), mas da forma como a notícia é filtrada até chegar ao leitor. Nasce uma nova fase para o jornalismo. Saberão seus profissionais aproveitar a oportunidade?



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Publicado originalmente no Update or Die, em 06/03/2014.

Lições do Super Bowl 2014 aos publicitários


O intervalo comercial da final do Super Bowl é tradicionalmente, o espaço publicitário mais caro do planeta, e por conta disso, espaço onde se costuma ver (nem sempre) as melhores propagandas e as tendências do mercado. Algumas delas (nem todas) também levam alguns leões em junho, durante o Festival de Cannes Lions.

Esse ano, talvez por conta da crise, não fiquei com a impressão de que os filmes publicitários superaram os filmes de 2013. No geral, a publicidade deste ano foi mais modesta. Ainda assim, o Super Bowl é também um bom momento para provar que o intervalo da televisão dá muito resultado, mesmo na era da internet.

Minha proposta aqui é portanto, identificar as várias estratégias publicitárias utilizadas durante o Super Bowl e também observar as diferentes formas de integração da televisão e o meio digital. Assim, você terá aqui uma boa fonte de referência para utilizar em suas próximas reuniões de brainstorm. Vejamos a seguir as estratégias mais utilizadas:


- O storytelling e a antecipação nas redes
Antes de mais nada, uma importante lição para a publicidade brasileira: nada de repetir o mesmo filme em cada um dos intervalos comerciais do evento. Melhor do que isso: conte uma história; e em cada intervalo, apresente um capítulo do enredo. Ou então prepare vários videos, cada um contando uma boa história e assim, prenda a atenção do espectador a cada intervalo.

A ExxonMobil fez isso. Preparou vários filmes sobre energia a gás e cada um deles foi veiculado em um dos intervalos.







Essa estratégia muitas vezes demanda boa verba para produção dos vários vídeos. E claro, repetir o mesmo comercial não é necessariamente ruim. A redundância é importante para fixar na mente do consumidor. A própria ExxonMobil repetiu mais de uma vez cada um dos seus filmes. Só é preciso evitar que a repetição seja exagerada e acabe incomodando o telespectador.

Outro aprendizado: você pode antecipar na internet o comercial que será transmitido posteriormente na televisão. Afinal, isso não diminuirá a audiência da TV, certo?

Muitas marcas já entenderam isso e passaram a antecipar no Youtube os filmes que seriam veiculados durante a final do Super Bowl. A Coca-Cola foi uma dessas marcas. Ela preparou dois filmes, cada um contando uma história diferente e na semana anterior ao jogo, colocou na internet para estimular a propagação pelas redes.





Mas não esqueça: o mais importante de tudo é ter uma boa história para contar, como fez a Cheerios e a Chrysler.






- A polêmica pré evento:
Sodastream fez uso dessa estratégia. Não propositalmente claro. Na semana anterior à final do jogo, seu filme publicitário (já antecipadamente publicado na web) foi recusado pela FOX para veiculação na TV por citar as marcas concorrentes Coca-Cola e Pepsi. Resultado: uma grande viralização espontânea do filme "proibido" que inclusive, contava com a participação da atriz Scarlett Johansson (ou seja, também é sempre importante ter uma celebridade presente para chamar a atenção).




- Humor: a estratégia que nunca falha
Técnica que nunca saiu de moda e garante resultado seja em qual cultura for. A publicidade só erra quando a piada não tem relação com o diferencial do produto, mas caso contrário, é sempre uma boa opção estratégica para gerar repercussão seja dentro das redes ou fora delas. Foi essa a opção da Volkswagen no Super Bowl de 2014:



A Kia utilizou estratégia semelhante, aproveitando ainda para fazer uma referência ao filme Matrix:



E aqui a Toyota com o comediante Terry Crews e os Muppets:



A Hyundai também usou o humor para mostrar todas as features do novo Elantra:



Daquelas que utilizaram o recurso humorístico, a Audi foi a minha preferida. A campanha começou com um teaser publicado no Youtube na semana anterior ao jogo:



E somente na sexta-feira antes do evento ela mostrou o filme que passou na televisão:





- O toque emocional
Humor não é o único recurso emocional. O drama ou o romance, quando acompanhados de uma história bem contada, também cativam o público. Abaixo o filme da  Budweiser:



Esse próximo da Budweiser, além de conter apelo emocional, também relata uma experiência real, a estratégia que descrevo a seguir.




- Promover experiências reais
Falei disso no post anterior deste blog. A publicidade precisa criar uma ponte com a realidade. Isso pode ocorrer de maneiras diferentes.
No caso da Cheerios, ela usou o intervalo comercial para comunicar um projeto que busca melhorar a qualidade de vida familiar:



No filme da Chevy, a marca convida o telespectador a participar da campanha contra o câncer:




Outra forma bastante eficiente para impactar e envolver as pessoas nos dias de hoje é mostrar outras pessoas, vivendo experiências incríveis, proporcionadas pela marca. Trata-se de uma das vertentes dessa estratégia de criar alguma conexão com a realidade das pessoas.

Nesse caso, pode não interferir diretamente naquele que assiste a televisão, mas fica a expectativa daquilo poder acontecer com qualquer pessoa comum. É o mesmo apelo utilizado pelos programas de reality-show.

A Bud Light fez isso muito bem, e ainda acrescentou várias celebridades na história, dentre elas, Arnold Schwarzenegger. Essa foi a minha campanha preferida desta edição do Super Bowl. Provavelmente deve ganhar alguns prêmios ao longo deste ano.

O primeiro video abaixo, foi o teaser publicado na internet. Os demais são os filmes que passaram na TV e também foram publicados no Youtube, no dia anterior à exibição na televisão:










- Televisão + Redes Sociais (real time marketing)
A marca de iogurte Chobani utilizou a televisão para promover sua história e seu personagem (o urso) e nas redes sociais, publicou vários outros videos, para iniciar uma conversação pública. No Twitter a marca interagiu com celebridades e outras marcas anunciantes.

Esse foi o filme da televisão:



E aqui o vídeo publicado no Youtube e depois replicado no Twitter com uma mensagem direta à cantora Katy Perry:



Durante o jogo a Chobani ficou o tempo todo estimulando a conversação nas redes, citando inclusive outras marcas anunciantes quando o comercial era veiculado na TV:



A Toyota também aproveitou os Muppets para promover uma conversação pelo Twitter durante o jogo:









- Coloboração nas redes
Estratégia adotada pela Doritos já por vários anos. A marca promove todo ano um concurso em que os usuários da internet são convidados a produzir um vídeo de Doritos. O mais votado é selecionado para passar durante o jogo na televisão. Esse foi o ganhador deste ano:





- O tradicional teaser, e nada mais.
Por fim, há aquelas marcas que preferem seguir o modelo mais tradicional de integração entre a televisão e a internet: antes do evento é publicado apenas um video teaser para gerar expectativa para o dia do jogo. O filme principal só é apresentado na televisão, durante o jogo. E somente após a exibição na TV é que o filme principal foi também publicado na web. Quem fez isso foi M&M´s. Aqui vai o teaser:



E aqui o filme que passou na televisão:




- Live Marketing
Para encerrar esse post, deixo a menção honrosa para a Pepsi que além de patrocinar o show do intervalo como fez nos últimos anos, desta vez também distribuiu um gorro com luzes para a plateia e com ele, promoveu um show de luzes coloridas pouco antes da apresentação do cantor Bruno Mars. As luzes eram animadas por computador o que transformou a plateia num grande painel eletrônico onde aparecia o logo da Pepsi, flutuando sobre a plateia.

Nesse video, pouco antes de começar o show do cantor Bruno Mars é possível ver rapidamente a plateia formando um grande mar azul e o logo da Pepsi girando sobre as pessoas.



Caso queira ver não só estes que comentei, mas todos os filmes publicitários veiculados durante o evento, clique aqui e confira no site oficial do Super Bowl.

Ah, claro, faltou  comentar que o jogo terminou com a vitória do Seattle Seahawks sobre o Denver Broncos (43 x 8).

Campanhas que interferem no cotidiano das pessoas


Tenho dito que a publicidade que efetivamente causa impacto nas pessoas e consegue gerar repercussão realmente espontânea (não a repercussão forçada a partir de compra de mídia online) é aquela que consegue criar uma ponte de conexão com a vida das pessoas.

Afinal, somos uma sociedade já muito malhada pela propaganda. Ganhamos expertise suficiente para ignorar mensagens de propaganda. Para transpor essa barreira inconsciente, é preciso elaborar uma nova forma e roupagem para a mensagem publicitária. Ela precisa ganhar relevância como se fala por aí. Por isso campanhas que envolvem o conceito de branded content fazem bastante sucesso.

Para ir além, acredito que as campanhas precisam causar alguma interferência no cotidiano da sociedade. Seja uma interferência direta naquele que consome a mensagem, ou uma interferência que ele veja como benéfica para a sociedade. "Vivenciar experiências" é outro termo que já foi utilizado para designar algo bem próximo do que proponho aqui.

Num post de 2012 eu já falava disso de maneira hipotética. Desta vez cito aqui uma ação publicitária bem simples, mas que ilustra perfeitamente a ideia de ações que causam algum interferência na vida das pessoas.

Já não é tão comum ver no Facebook as pessoas comentando alguma campanha publicitária. Recentemente muitos usuários compartilharam de maneira completamente espontânea, um aplicativo que era parte de uma campanha do produto de limpeza Ajax. Foi desenvolvido pela marca para uma campanha na Australia, mas ganhou repercussão internacional.

Para reforçar o benefício da "limpeza", a marca criou um aplicativo que leva o mesmo nome do produto e promete ajudar o usuário a eliminar da sua timeline no Facebook e Twitter as mensagens de propaganda publicadas por outras marcas que no passado ele aceitou receber. A interface do aplicativo mostra a relação de todas as marcas que o usuário "curtiu" ou começou a "seguir" e ali é possível eliminar as marcas que ele não deseja mais acompanhar.

Ou seja, uma mensagem publicitária que busca oferecer um benefício real para o cotidiano do usuário. Abaixo o vídeo de divulgação do aplicativo.




A Samsung fez algo parecido e criou para os consumidores de celular (um de seus produtos) um aplicativo que tenta evitar acidentes de trânsito silenciando as notificações de mensagens enquanto o usuário está dirigindo:




Outra forma de ver essa ponte com a realidade é através do envolvimento de consumidores reais na construção da mensagem publicitária. Neste caso, o receptor da mensagem pode não realizar uma conexão direta, mas ele consegue ver nitidamente o impacto que aquela mensagem causou numa pessoa comum, como ele. É o caso da campanha muito comentada e compartilhada realizada pela Dove, "Retratos da real beleza".



Nos dois primeiros casos, a mensagem vem em forma de uma oferta de serviço (um aplicativo gratuito). Já na campanha da Dove o impacto vem através do caráter de documentário e/ou reality show do filme publicitário. Apesar de serem maneiras distintas, em ambos, nota-se o cotidiano de pessoas reais sendo modificados por estímulo do anunciante. 


Uma loja online onde homens são oferecidos como produtos


Logo após toda a polêmica sobre o aplicativo LULU - em que as mulheres podem categorizar e dar nota para os homens que fazem parte da sua rede de contatos no Facebook - chegou em casa uma carta "diretamente da França" com material de lançamento do portal adoteumcara.com.br; um site onde os homens são tratados como produtos e as mulheres podem "colocar no carrinho" aqueles que mais gostarem.

Em julho eu já havia antecipado aqui no blog o lançamento desse portal no Brasil. Estou curioso para saber como será a receptividade dos brasileiros. Porém, é preciso ser claro e salientar que o "Adote Um Cara" não se compara diretamente com a proposta do aplicativo Lulu.

"Adote Um Cara" é uma plataforma de relacionamento que promove encontros, como os já conhecidos parperfeito.com.br, eharmony.com.br e o br.match.com. Porém tanto a proposta quanto a linguagem visual são bem diferentes.

No "Adote Um Cara" são as mulheres que estão no comando da plataforma. Os homens só conseguem estabelecer contato com alguma mulher se ela colocá-lo em seu "carrinho de compras". Assim, a abordagem escolhida de "loja online" em que os homens são "produtos" é a forma descontraída encontrada pela plataforma para promover a aproximação de casais.

O foco da plataforma é atingir jovens entre 18 e 30 anos. Na França, onde a plataforma nasceu, já são mais de 7 milhões de usuários. Será que no Brasil ele consegue ganhar destaque entre os atuais portais de relacionamento? Tudo depende de como o público brasileiros vai encarar essa visão consumista do relacionamento amoroso.






Uma breve entrevista com o autor dos “pedidos musicais”, sucesso do WhatsApp

O esquete "A Vó Do Nelson Come Nuggets" foi fenômeno de repercussão espontânea entre jovens de todo o Brasil.


No post anterior falei da propagação espontânea que os esquetes de “pedidos musicais” alcançaram entre os jovens no Brasil. A repercussão impressionou até mesmo seu criador, o DJ Ivan Davis.

Por se tratar de uma rede de comunicação fechada, o WhatsApp não oferece ferramentas que permitam ao autor dos esquetes acompanhar o alcance obtido com a sua iniciativa de divulgar seu trabalho encaminhando arquivos de áudio através dessa plataforma. Foi uma surpresa para ele, descobrir que pessoas de outros estados estavam compartilhando os esquetes.

Foi em Belém (Pará) que nasceram os esquetes, como parte do programa PacMania da webrádio Chic. O roteiro é sempre o mesmo: alguém ligando para a rádio pra pedir uma música, porém  sem saber inglês, ele canta a música da forma como bem entende.

Ouça aqui o "Melô da Tia Nastácia":


E o mais famoso, "A Vó Do Nelson Come Nuggets":


Considero interessante para quem estuda os processos de comunicação digitais, conhecer o caso do DJ Ivan Davis e o fenômeno de repercussão espontânea ocorrida com seus esquetes de “pedidos musicais”.

Fiz algumas perguntas para entender a visão dele sobre toda essa repercussão, abaixo segue a breve entrevista:

- Desde quando você produz os esquetes do quadro "Pedidos Musicais"?
DJ Ivan: Os esquetes vêm sendo feitos (se não me falha a memória) desde março ou abril de 2013.

- A repercussão dos esquetes através do WhatsApp era parte de uma estratégia de divulgação do seu trabalho?
DJ Ivan: Não! Não foi nada planejado, mas lá no fundo eu tinha um desejo enorme de que isso acontecesse e sempre pensei nisso. Não sou ator nem humorista. Sou DJ! E modéstia a parte,  faço isso muito bem; porém tenho consciência que somente como DJ eu teria mais dificuldade em conseguir esta exposição. As pessoas procuram coisas diferentes.

- Além do WhatsApp, você tinha alguma estratégia de promoção/divulgação do quadro "Pedidos Musicais" que você praticava antes de se tornar conhecido nacionalmente?
DJ Ivan: O quadro faz parte de um programa de webrádio; e é produto de um projeto geek/retrô chamado "PAC" (Para Adulto Curtir). O projeto existe desde janeiro de 2006 e as "estratégias" para divulgação do programa eram basicamente falar dele nas redes sociais, divulgar nas festas e fazer também o caminho inverso: usar o programa pra divulgar as festas. Começamos a soltar no WhatsApp os pedidos musicais pois sabíamos que nem todos estão online no horário do programa pra ouvir as paródias, sendo assim, fiz uma edição simples colocando o esquete acompanhado de uma vinheta divulgando o programa.

- A citação dos seus esquetes no programa do Ricardo Boechat na rádio BandNews FM foi consequência da propagação espontânea nas redes sociais, certo?
DJ Ivan: Sim, claro! O próprio Boechat falou que pessoas próximas a ele recebiam as minhas paródias no celular através de outras pessoas que eu não tenho a mínima ideia de quem sejam (o caminho que as paródias fizeram até chegar nele deve ter sido enorme, mas com a velocidade das coisas, surtiu efeito rápido).
Resumindo: numa manhã que citaram meu nome na BandNews, meu celular tocou umas 50 vezes. Era gente do Brasil inteiro me perguntando sobre os esquetes. Pelas ligações que recebi, notei que o Rio de Janeiro é o local onde a propagação foi maior, seguido de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Goiânia. Inclusive, as paródias hoje são mais conhecidas nestes estados do que na minha própria cidade.

- Essa repercussão em nível nacional você credita à aparição no programa da rádio BandNews ou à propagação nas redes sociais?
DJ Ivan: Acho que a divulgação nas redes sociais (principalmente o WhatsApp) é o forte da propagação, mas a divulgação do Boechat ajudou muito para apresentar os esquetes a outro público de uma faixa etária mais alta (que talvez nem tenha smartphone). Tenho essa impressão pois a faixa etária das pessoas que me ligaram (por conta do Boechat) era acima dos 40 anos.

- Depois do sucesso espontâneo, você criou um canal no Youtube para amplificar a visualização dos esquetes. Que outras estratégias de propagação em redes sociais pretende adotar?
DJ Ivan: Eu criei o canal no Youtube pois confesso que estava totalmente perdido em relação ao "sucesso" das paródias. Eu queria medir o alcance e a audiência, mas com o WhatsApp eu não conseguia. Agora eu posso medir, pelo menos através do YouTube, o crescimento das visualizações a cada dia. O canal tinha em outubro cerca de 30 mil visualizações. No final de novembro já ultrapassou 300 mil, sem contabilizar os outros canais piratas que estão usando minha voz e publicando também no YouTube, sem dar o crédito.

- Hoje muitas marcas possuem fanpages no Facebook e procuram constantemente conteúdos relevantes e de entretenimento para gerar conversação com seus consumidores. Você acredita que os esquetes do "Pedidos Musicais" poderiam ser utilizadas em campanhas publicitárias dentro das redes sociais? De que maneira você acredita que o "Pedidos Musicais" poderia ajudar uma marca/produto a se promover?
DJ Ivan: Nós já temos a fanpage do projeto PAC, mas muita gente ainda não descobriu. Tenho alterado constantemente as descrições dos posts do YouTube para que as pessoas tenham mais informações a respeito do programa PacMania e também da minha pessoa. Nas paródias citamos nomes de muitas marcas como: Subway, Nike, Danone, entre outras. Eu ficaria muito feliz em fazer uma parceria com alguma delas.



Ações de publicidade no WhatsApp

Cuidado: usar WhatsApp como se usava o SMS denuncia idade.


A propaganda não está presente em plataformas de redes sociais apenas por serem canais de comunicação da moda. Para uma marca, mais do que estar associada às tendências e inovações, o importante mesmo é estar presente no cotidiano do seu consumidor.

E se o seu público-alvo são os jovens, posso lhe garantir uma coisa: a rede social mais utilizada por esses jovens não é o Facebook, Twitter, Google+, Instagram nem Snapchat. É o WhatsApp. Minha afirmação não vem de uma pesquisa qualitativa, trata-se apenas de uma constatação empírica. Ainda assim, não duvido que logo apareça uma pesquisa para comprovar minha impressão.

Um parênteses: se por acaso você acha estranho considerar o aplicativo WhatsApp como uma rede social, é porque você provavelmente, não faz parte dessa nova geração de humanos que nasceram acoplados a um dispositivo de comunicação móvel.

Sinto muito dizer, mas usar WhatsApp como se usava o SMS, apenas para mensagens breves e pontuais, bom, isso denuncia idade.

Jovens utilizam o WhatsApp para mantê-los em contato com seus amigos. Permanentemente. Não importa a situação (até no meio da aula), a hora (até no meio da madrugada) nem o lugar (até no meio da praia).

Eles estão conversando a todo o momento, numa conversa que não tem fim. Podem ser conversas simultâneas com várias pessoas individualmente ou então conversas em grupos. Quando um jovem dessa geração acorda, em seu smartphone já consta uma dezena de mensagens do WhatsApp em espera.

Eles não compartilham apenas mensagens. Enviam fotos capturadas naquela hora e também mensagens de voz ou vídeo. Acredite em mim: eles fazem trabalho da escola em grupo, através do WhatsApp. Caso digno de uma reportagem do Globo Repórter, não?

Publicidade:

Ciente desse cenário, que marca não gostaria de estar presente nesse ambiente? O próprio WhatsApp já deve ter planos para criar formatos de anúncios publicitários, assim como fez o Instagram recentemente. A Luana Hazine identificou outro dia algo que pode vir a ser um teste do WhatsApp para inserção automática de imagens acompanhando determinadas referências, como no exemplo abaixo, quando se digita “globo.com” aparece o logo do portal. Quem sabe uma pequena experiência para em breve lançar formatos de propaganda.


Mas confesso que espaços pré-definidos para propaganda me desanimam um pouco. Primeiro porque isso destrói a informalidade e intimidade do usuário com a plataforma. Num curto período de tempo, começam a surgir sinais de usuários descontentes com a quantidade de propaganda presente na plataforma.

Outra razão é que anúncios pré-formatados minam a criatividade dos publicitários. Esses profissionais acomodam-se nos moldes definidos pela plataforma e não conseguem mais criar  algo original. Algo que seja inovador e gere propagação espontânea dentro dessa rede.

Prefiro o momento que vivemos agora: um caldeirão borbulhante de agências de publicidade repletas de criativos tentando descobrir uma forma de inserir a marca de seus clientes no meio das conversas que rolam diariamente no WhatsApp.

Viral espontâneo:

Quem duvidar que essa plataforma tenha potencial para propagação espontânea é só perguntar para um jovem se ele conhece a música " A Vó Do Nelson Come Nuggets". Vou explicar:

O DJ Ivan Davis é responsável pelo programa PacMania da webrádio Chic (www.radiochic.com.br). Semanalmente ele produz o quadro humorístico “Pedidos Musicais”,  em que o roteiro é sempre o mesmo: alguém ligando para a rádio pra pedir uma música, porém  sem saber inglês, ele canta a música da forma como bem entende.

No YouTube há um canal em que é possível conferir algumas das suas esquetes, mas não foi a partir dessa plataforma que as esquetes fizeram fama. Foi através de arquivos de áudio distribuídos espontaneamente entre os jovens pelo WhatsApp. Muitos deles mal sabem da existência da rádio Chic, mas conhecem muito bem as esquetes.




Imagine aproveitar esse potencial de propagação em uma campanha estrategicamente pensada para promover uma marca. É isso que muitos publicitários buscam atualmente. Por hora ainda são poucos os exemplos de ações de publicidade que usam exclusivamente o WhatsApp na comunicação com o público-alvo, mas há sim alguns exemplos em que a plataforma fez parte da estratégia:

Alguns casos:

A agência W3haus criou para o Dia dos Namorado a ação “Plantão do Amor” de Sonho de Valsa: usuários do Facebook e WhatsApp puderam enviar mensagens solicitando dicas para a comemoração da data. Quem se interessar por esse caso pode ver mais na matéria da revista Proxxima, basta baixar a edição 76. Abaixo um vídeocase produzido pela agência:




Outro caso é a ação de Chivas Regal que criou um canal no WhatsApp onde os consumidores podem conversar com o “barman”, personagem criado a partir de uma campanha anterior. Foi uma estratégia adotada pela agência F.Biz para aproximar os consumidores da marca Chivas.



Além disso, há pequenas experiências realizadas por empresas de diferentes setores em que o WhatsApp passou a ser uma solução de comunicação entre a empresa e seus parceiros, como por exemplo, empresas do setor imobiliário que estão usando o WhatsApp para manter contato com os corretores e estes por sua vez, utilizam a plataforma para enviar informações sobre o empreendimento para seus clientes.

A Nayane Monteiro, de Fortaleza, contou-me que lojas de moda feminina estão utilizando o WhatsApp para enviar para seus clientes VIPs fotos das peças da nova coleção e que essa estratégia gerou bons resultados.

Quando questionei nas redes se alguém conhecia casos de sucesso de aplicação do WhatsApp em campanhas publicitárias, o Sthefan Berwanger enviou-me esse vídeo que mostra a ação criada pela marca de chocolate israelense Klik. Vale a pena assistir para conferir a mecânica. O Blogcitário também comentou esse caso em um de seus posts.




Outra possibilidade:

O fato é que a plataforma possui alguns limitantes em relação à interação entre marcas e consumidores. Antes de mais nada, a exigência de um número de celular obriga a marca a divulgar em algum outra canal esse número de contato. Além disso, essa exigência do número também obriga que a interação seja realizada por um único aparelho celular, o que dificulta a troca de mensagens com um volume muito grande de usuários ao mesmo tempo. Também impossibilita o uso dessa plataforma como um canal de atendimento ao consumidor (SAC).

Ainda assim, uma possibilidade de ação publicitária envolvendo o WhatsApp poderia seguir a seguinte mecânica: primeiramente a marca anunciaria em seus canais de comunicação costumeiros um número de celular exclusivo para conversar com uma celebridade, em determinado dia e hora. Antes dessa data, os interessados em participar devem enviar mensagem solicitando participar de um determinado grupo do WhatsApp.

A empresa poderia então promover conversas em algumas datas e horários agendados, com a presença de uma celebridade que tivesse aderência com a marca. No horário agendado, estariam presentes a celebridade, consultores da marca e o moderador responsável por publicar as mensagens no WhatsApp.

Ao invés de estimular conversas individuais, a celebridade publicaria mensagens no grupo, convidando os participantes a interagirem enviando fotos, vídeos etc. Durante a conversa a celebridade pode comentar as qualidades da marca e dicas do produtos, além de promover rápidas brincadeiras como por exemplo "siga o mestre", como fez a marca de chocolate Klik. Ao final da ação, a marca pode ainda entrar em contato com cada um dos participantes e solicitar seus dados para enviar uma amostra do produto.

Essa é apenas uma ideia possível de aplicação do WhatsApp numa ação publicitária. Provavelmente antes que 2014 de seus primeiros sinais de vida já deveremos ter mais alguns casos realizados. Fique de olho. Logo alguma marca vai pintar no seu WhatsApp.

[update 01/12/13] 

Meu ex-aluno Aldo Bitencourt contou que o jornal "Em Tempo" de Manaus (AM) está usando o WhatsApp para estimular a produção de conteúdo colaborativo com seus leitores. Um número de celular é disponibilizado para que os leitores enviem fotos e informações pelo WhatsApp. Os fatos encaminhados são publicados na fanpage do jornal, como no exemplo abaixo:







Síntese sobre o panóptico social na era da exposição

Somos vigiados pelos nossos próprios amigos.



A ideia de panóptico social vem de uma teoria que levantei alguns anos atrás: vivemos uma época em que a exposição do cotidiano ganhou o interesse da sociedade. Chamo isso de “era da exposição”.

Chegamos nesse cenário por conta não só do surgimento de plataformas de redes sociais, mas pela evolução da própria sociedade. Da valorização da imagem para a sociedade do espetáculo e por aí adiante. Na televisão essa valorização do cotidiano teve início com os reality shows. A onda era ver gente comum. Um recorte amplificado do que é parte da realidade cotidiana.

Daí, do reality show para os blogs e perfis nas redes sociais foi um pulo natural. Agora o show da vida cotidiana e da loucura de cada um de nós é exposta para milhões sem a necessidade de passar pelo aval de uma emissora de TV.

Pois bem, tudo isso já é realidade.  Nos vemos no seguinte cenário: somos vigiados pelos nossos próprios amigos.

Quando você acessa o twitter, facebook ou google+, a primeira tela que lhe aparece não são informações suas ou então notícias da imprensa. São as publicações dos demais usuários. Você é convidado pela plataforma a constantemente acompanhar o que os outros estão expondo a cada minuto.

As adolescentes já ganharam o costume de publicar fotos do seu “look do dia” e esperar pela “reação” da sua audiência nas redes.

Esse comportamento faz com que não só o estilo visual, mas todo o comportamento daquela pessoa seja pautado pela opinião do outro. Nada mais natural do que já acontece há décadas dentro de qualquer escola. A diferença é que o meio digital oferece uma amplificação dessa exposição. A audiência agora não são apenas os colegas da escola, da mesma idade e perfil social. A audiência agora é global e ainda estamos descobrindo as possíveis ramificações que isso pode gerar. Muda também a velocidade com que a evolução do processo social ocorre. O desenvolvimento da moda, por exemplo, ganha uma nova dinâmica com a interferência do compartilhamento nas redes. Os mais conservadores ficariam aterrorizados em ver a rapidez com que o tamanho de uma mini saia diminui e o decote aumenta dentro de um instagram ou dujour.

Outro ponto: o costume em opinar frequentemente sobre o que é publicado pelos amigos vai se intensificando a ponto de abrir espaço para as críticas. Passa a ser “natural” criticar nas redes as atitudes do outro. Algumas vezes chega a ser uma espécie de bullying disfarçado de auto-regulamentação da moral nas redes.

É claro, há por trás disso situações clássicas e atemporais, como o confronto das classes sociais. Conforme cresce a popularização dos smartphones e consequentemente das redes sociais, mais choques culturais ocorrerão.

Porém não é só isso, há ainda uma indefinição em jogo na relação do discurso privado e  público.  Estamos - ainda - definindo limites, e em situações assim, cometemos exageros, tanto do lado de quem publica quanto de quem critica. Há o caso da carteirada da blogueira da Capricho, do post com dias de como viajar com babás e o vídeo do menino Nissin e a baleia. Além destes, vale refletir sobre as consequências do panóptico social (que se transformou num verdadeiro cyberbullying) ocorrido numa única foto publicada pela menina Julia Gabrielle.

Enfim, somos vigiados. Não só pelo governo. Antes pensávamos que a vigilância ganharia real abrangência conforme o desenvolvimento tecnológico. Estávamos certos, mas acreditávamos que haveria por trás um único órgão gestor da vigilância. Quem sabe um governo autoritário, ou talvez as próprias máquinas quando alcançassem autonomia e inteligência. Pois bem, hoje o poder maior que nos rege é a própria sociedade em rede. Nada mais óbvio. Ponto para Manuel Castells e Pierre Lévy.

Eu já disse num outro texto: estamos constituindo uma sociedade da vigilância, semelhante às ideias
de Foucault, porém agora o modelo do panóptico é social, é colaborativo. A sociedade vigia a si mesma, através das redes sociais. O "grande irmão" (de George Orwell), no final das contas, somos nós
mesmos.

O controle parece o mesmo de sempre, mas foi amplificado e tornou-se público. Mães e pais sentem-se inseguros com o que seus filhos publicam nas redes. Um delinquente marginal, um assaltante ou um pedófilo podem começar a “stalkear” e tentar uma aproximação pelas redes.

Já por sua vez, filhos de todas as idades, sentem-se completamente expostos frente a seus amigos por conta do que seus pais publicam nas redes. Uma mãe que “curte” tudo aquilo que o filho publica pode causar uma desmoralização do filho sem se dar conta disso.

Ambos os casos são motivos suficientes pra tanto pais como filhos começarem a criticar e controlar o que o outro torna público nas redes.

Piores são os casos em que a exposição ganha proporções que ultrapassam o círculo de amizade daquela pessoa. Quando isso acontece, as críticas ganham de fato um aspecto de linchamento social. Merecido talvez, mas nem sempre.

Quem já vivencia o ambiente das redes sociais no dia-a-dia - talvez - esteja mais maduro para compreender seus desdobramentos. Quem está criando agora seu perfil na rede corre risco de cometer gafes sociais por conta da sua ingenuidade com esse meio. Na ânsia de ajudar o amigo, os usuários "experientes" acabam às vezes ultrapassando o limite que separa o "mero conselho" do "controle social". Esse é o nosso panóptico social de todos os dias. Será que eu deveria ter publicado isso? ;-)




Chegam ao Brasil os comunicadores sociais móveis



Já populares nos países orientais, os comunicadores sociais são apps para smartphones que buscam reunir as aplicações que estão diversificadas em diferentes aplicativos como Skype, Hangouts, Whatsapp, Twitter etc.

Esses comunicadores sociais ganharam popularidade no ocidente e recentemente começaram a investir no Brasil. Dois deles em especial, estão com campanha na televisão atualmente. São eles o Line e o WeChat.

Ambos são muito semelhantes e após instalados oferecem a possibilidade de interação com outros usuários através de mensagens de texto, voz ou vídeo. Também possuem uma espécie de “timeline” onde é possível compartilhar textos ou fotos.

O WeChat foi oficialmente lançado essa semana no Brasil. É bastante popular na China e contabilizando o mundo todo já atingiu mais de 70 milhões de usuários. Sua campanha de promoção conta com a participação de diversas celebridades. O filme mais recente para TV tem a participação do jogador Messi.




O Line é originário do Japão e nasceu como uma alternativa de comunicação logo após o terremoto que gerou um enorme tsunami em 2011. Desde então o aplicativo vem se desenvolvendo e hoje já conta com mais de 120 milhões de usuários em todo o mundo. Na campanha da TV, o Line procura focar na ferramenta de troca de mensagens de texto, talvez querendo aproveitar o momento em que o WhatsApp anunciou que irá cobrar pelo aplicativo. Tanto o Line quanto o WeChat podem ser baixados gratuitamente.




É difícil prever a aceitação destes comunicadores sociais no Brasil. A variedade de recursos pode chegar a ser um ponto negativo por dificultar o uso do app. Além disso, o mercado brasileiro depende ainda de uma popularização maior dos smartphones mais potentes.

Por outro lado, ambos buscam se diferenciar através de recursos exclusivos. No Line há uma ferramenta que permite a tradução simultânea das mensagens de texto. Já o WeChat conta com diversos recursos sociais que permitem o usuário ampliar sua rede de contaos. Um dos recursos convida o usuário a “lançar uma garrafa” com alguma mensagem que poderá ser capturada aleatoriamente por outro usuário do serviço.


Para ver mais e baixar o aplicativo:
Line: http://line.naver.jp/pt-BR/
WeChat: http://www.wechat.com/pt/



Cinco itens essenciais do digital (parte 1)

...e algumas dicas de como utilizá-los na publicidade


Costumo dizer que há alguns conceitos fundamentais a serem considerados por quem pretende desenvolver uma ação de comunicação nos meios digitais. Há também as tendências que não devem ser desprezadas.

Deixo aqui duas (e no próximo artigo mais três) referências, bem como algumas ideias e exemplos que já vi por aí. Claro, tudo isso também vale para quem trabalha com redes sociais. Da próxima vez que pedirem para você incorporar as mídias sociais na campanha de comunicação, veja se as referências abaixo servem para estimular sua criatividade:

Colaboração
Junto com a Interatividade e a propensão ao Compartilhamento, a Colaboração é uma característica intrínseca à internet. Na era das redes sociais, a Colaboração alcançou um novo patamar. Hoje vemos termos como crowdsourcing e crowdfunding ganhando destaque. A Fiat comprovou o potencial da Colaboração com o seu projeto Mio; e Ruffles chegou a lançar um novo sabor, sugerido por seus consumidores. Porém não são somente as grandes campanhas que podem tirar proveito desse conceito.

Você pode propor situações mais simples, como convidar os usuários do Facebook que acompanham a fanpage da marca a opinarem no processo de criação de um novo filme para TV. Além de estimular o buzz, vai gerar muita expectativa.

Quando a proposta é fazer uma comunicação dirigida somente a alguns influenciadores do meio, pode-se antes, visitar o perfil de cada um e convidar seus respectivos amigos a participarem de alguma etapa do processo de comunicação que será realizada. Sem dúvida vai gerar mais proximidade com esses influenciadores. Já vi isso sendo aplicado e funciona bem.

Interatividade
Como disse antes, a Interatividade é um fator inerente dos meios digitais. Por se tratar de um meio de comunicação bidirecional, a Interatividade é estimulada a todo momento. Claro, pode-se lançar uma comunicação unidirecional na internet, mas o resultado não é o mesmo. Essa experiência vem da época em que os banners estavam na moda. Compare um banner sem interação com outro que interage com o usuário, adivinhe qual gera mais retorno?

Porém falar de Interatividade na internet é chover no molhado. Quero avançar essa reflexão. Sabemos que o meio é capaz de influenciar seu receptor. Marshall McLuhan discorreu bastante sobre isso no passado. Hoje somos mais participativos na relação com os meios, provavelmente por conta do estímulo oriundo dos meios digitais.

Digo isso, pois defendo a ideia que devemos proporcionar a Interatividade também fora da internet. Para lidar com um público mais participativo, precisamos rever os anúncios que produzimos para a televisão, o rádio e o meio impresso. Se você observar os novos programas e conteúdos que surgem para esses meios, verá que tenho razão. Devemos cuidar para que a propaganda destes meios também seja interativa.

O filme para TV e o spot para rádio podem conversar com o consumidor, pedir para ele participar de uma causa ou simplesmente, pedir para ele olhar para o lado e sorrir, como fez a Brastemp. Você pode convidá-lo a escrever o fim da história ou participar de um evento no Facebook.

O meio impresso também pode ser interativo. Que tal usar a tecnologia da Realidade Aumentada para que o próprio anúncio faça as vezes de um volante, num test-drive virtual de um novo automóvel? Ou então aplicar um código QR no rótulo do produto que permite acessar mais informações sobre aquele produto, pelo celular, lá no ponto de venda!

O código QR também pode ser aplicado no anúncio impresso para quando decodificado, efetue imediatamente uma ligação para um número telefônico. Ele também pode conter o link para instalação de um aplicativo no celular que oferece algum benefício relacionado ao conceito da campanha. Ou que tal espalhar símbolos de código QR pela cidade? Enfim, as possibilidades de interatividade são infinitas.

Quero ainda abordar outros temas importantes como a Mobilização, a Mobilidade e a Geolocalização, mas fica para a próxima edição desta coluna.

Por hora, desejo a todos uma ótima passagem de ano, já que este é meu último artigo de 2011. Até o ano que vem!



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Publicado originalmente na coluna da edição impressa do jornal Meio e Mensagem, ano XXXIII, núm.: 1487, pág. 8. São Paulo: Meio e Mensagem, 28/11/2011.