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Um app que te conecta com pessoas que cruzaram sua vida no passado

Recebi o material de uma nova rede social que está prestes a ser lançada. A promessa é para início de 2017.
Sua interface é baseada em imagens, assim como o Instagram, mas seu mote é o tempo passado e futuro. Seu nome é TimeHi.



Há muito pouco ainda sobre essa nova plataforma. Apenas um perfil no Facebook, outro no Instagram e uma página web de cadastro para ser um dos primeiros a conhecer o app no lançamento.

Me pergunto se há espaço para mais uma rede social. Não é fácil estimular o gatilho que gera o movimento social de migração para outra plataforma. Afinal, o que motivaria a grande massa a trocar o Facebook, o Instagram ou o Whatsapp por outra rede? É preciso criar um desejo que se espalhe e contamine rapidamente todos os usuários.

Eu prefiro acreditar que o espaço para novas redes não está na briga direta, mas na busca por um nicho e uma experiência própria. Assim vejo o esforço do SnapChat, por exemplo. Desenvolveu uma interface própria que, por conta do sucesso, recentemente foi copiada pelo Instagram. Mas antes disso, já havia se firmado entre os jovens, principalmente meninas, que gostam de consumir tudo sobre o tema “lifestyle” e usam o SnapChat para acompanhar o cotidiano das celebridades e influenciadores digitais. Hoje o SnapChat já alcançou mais usuários ativos do que o Twitter.

Neste cenário, minha aposta é que o sucesso de um aplicativo novo como o TimeHi está na sua capacidade de conseguir atingir rapidamente um nicho que se interesse pela proposta da interface e passe a utilizá-la em seu cotidiano. Um nicho, um segmento da sociedade. Não a grande massa como acontece com o Facebook.

É preciso que esteja claro que experiência a plataforma vai proporcionar. No Facebook é o compartilhamento em tempo real de algum fato relevante. Já no Instagram é a exposição das imagens do cotidiano. O SnapChat focou na exposição de videos curtos, relacionados às últimas 24 horas, algo ainda mais intimo. Já o TimeHi, procura não olhar para o presente, mas principalmente para o compartilhamento de imagens do passado e mensagens para o futuro.

É possível publicar imagens e indicar uma data no passado, seja um dia ou 15 anos atrás. Ela será posicionada por ordem cronológica na sua linha do tempo. Além disso, há a expectativa de que, mais para frente, o app conecte as pessoas a partir desses eventos acontecidos no passado. Ou seja, o app vai permitir estabelecer uma conexão com pessoas que cruzaram seu caminho em algum momento no passado. Isso pode interessar muitos, seja para o networking profissional quanto para relacionamentos sociais e amorosos.

As funcionalidades em relação ao tempo futuro também podem agradar: é possível programar que uma publicação seja enviada para alguém (ou para si mesmo) no futuro. Que tal daqui a 10 anos receber um recado do seu “eu do passado”? Ou surpreender alguém próximo com uma mensagem sua?

Os responsáveis por essa plataforma são brasileiros e por enquanto estão criando apenas uma audiência de curiosos, até o app efetivamente sair do forno. Quem quiser ser um dos primeiros a conhecer, é só cadastrar seu e-mail nesse link.

Fique atento a um novo modo de consumir notícias

O meio impresso perdeu leitores não só por conta do apelo que o meio digital tem entre os jovens. Aliás, considerar que digital é coisa de jovem - em pleno 2016 - não é só um atestado de ignorância, mas também um atestado de cegueira, afinal é só olhar para os espaços públicos e notar como praticamente ninguém mais lê jornal ou revista. Agora estão todos “lendo” um celular.

Mas como disse, a questão não é só o digital. O jornal por exemplo, vem perdendo leitores pois independentemente da idade, quase ninguém mais tem aquele hábito antigo (característico do jornal) de fazer uma leitura tranquila pela manhã, antes de sair para o trabalho. O mercado acelerou o ritmo do homem. Hoje já acordamos trabalhando. Tem gente que acorda e imediatamente já está respondendo whatsapp do trabalho, mesmo antes de sair da cama.

E vou além, se não temos mais tempo para ler um jornal impresso, quem consegue, em meio à correria do nosso dia a dia, parar por cerca de uma hora para ler com calma um portal de notícias? Minha hipótese é a de que está diminuindo o número de pessoas que acessam a página de entrada dos sites de notícias.

Nem por isso as pessoas andam desinformadas. Não é essa minha conclusão. Apenas o comportamento delas que mudou. As pessoas continuam consumindo notícias, mas ao longo do dia, de forma fragmentada, através das redes sociais.

Alguns apontamentos ajudam a comprovar essa minha hipótese. O primeiro deles é você próprio. Observe quantas notícias você ficou sabendo por conta de um “post” compartilhado nas redes e só então você entrou no site que traz a matéria completa. Note como o hábito de acessar a página de entrada do seu jornal preferido perde lugar para um novo comportamento. Quem é assíduo das redes prefere “seguir” determinado jornal numa plataforma de redes sociais em lugar de acessar o seu respectivo site.

Um indicio desse comportamento é visível quando comparamos o volume de consultas ao Google pelos termos “site Estadão” e “Facebook Estadão”. Nota-se claramente que ao longo dos anos, a procura pelo link e consequentemente, o interesse por acompanhar o Estadão nas redes cresce incrivelmente e torna-se bem maior do que aqueles que procuram o portal na internet.


Resultado semelhante encontramos se compararmos outros veículos de mídia como “site G1” e “Facebook G1”, ou então “site Le Figaro” e “Facebook Le Figaro”.






Outro dado que complementa essa minha hipótese: o relatório Mídias Sociais 360o (publicado trimestralmente pelo Núcleo de Inovação em Midia Digital da FAAP em parceria com a Socialbakers) mostra que no último trimestre de 2015, as principais páginas brasileiras no Facebook de mídia/notícias tinham em média, mais de 3 milhões de curtidas. No segundo trimestre de 2014, eram cerca de 2 milhões de curtidas; ou seja, ao longo do ano só cresceu o número de pessoas interessadas em acompanhar as publicações das páginas de midia/notícias no Facebook.

Vale acrescentar também que esse novo comportamento está diretamente relacionado à migração do consumo de informação do computador de mesa para os dispositivos móveis. Segundo relatório “Brasil Conectado” publicado em 2014 pelo IAB Brasil, o uso da internet a partir de computadores de mesa, seja em casa, no trabalho ou na escola, vem caindo desde 2012. No mesmo período, só cresce o uso da internet por dispositivos móveis.

Com isso, meu argumento é que no celular, a consulta por informação é fragmentada, pontuada pelos intervalos do cotidiano, ou seja, surge um novo comportamento de consumo de midia.

Quem trabalham com comunicação deveria observar atentamente tudo isso. Principalmente quem trabalha com mídia. É preciso olhar para esse novo comportamento na hora de montar um plano de mídia. Não basta apenas descobrir qual portal ou rede social seu público utiliza. É preciso olhar atentamente como se dá o consumo de informação ao longo do dia daquele determinado público, para descobrir qual horário exato o “post” deve entrar na rede. Também é preciso identificar em quais páginas específicas do portal de notícias deve-se anunciar ao invés de dispender uma grande verba anunciando na página de entrada do portal.

Para encerrar, outro hábito que está mudando: o mesmo relatório do IAB Brasil citado antes, aponta uma forte tendência de queda no consumo de rádio dentro do carro. Minha hipótese para essa queda é o crescente uso das plataformas de streaming de música como Spotify, Apple Music, Deezer e Tidal. Provavelmente essas plataformas são as novas companheiras do motorista para enfrentar o trânsito. Fique atento a isso. Já pensou em criar uma ação de comunicação envolvendo o Spotify e motoristas na hora do rush? Pode dar muito certo.






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Publicado originalmente na coluna "Opinião" da edição impressa do jornal Meio e Mensagem, ano XXXVII, núm.: 1698, pág. 08. São Paulo: Editora Meio e Mensagem, 22/02/2016.

Dicas para um jovem profissional de publicidade



Caro Caio,

Seu artigo chegou até mim por conta de alguns jovens profissionais que o compartilharam nas redes. Ao ler, notei que ele reflete muitas das inseguranças vividas por esses jovens e por isso, resolvi escrever-lhe essa carta, na esperança de que fosse útil não só a você, mas também a eles.

Sua insegurança demonstrada no artigo é de fato, muito pertinente, porém enfatizo que ela é fruto de alguém que vive uma ansiedade pelo o que está por vir e por isso, considero extremamente positiva, já que o faz estar sempre atento às mudanças.

Assim, a primeira dica que deixo é: aprenda conviver com essa ansiedade, pois ela é de grande valia e provavelmente só vai desaparecer depois dos 90 anos. Ao menos é o que eu imagino, pois não cheguei nessa idade ainda pra confirmar. Digo isso apenas pela calma e tranquilidade que observo no olhar dos idosos. O olhar deles me faz crer que a angústia e a ansiedade deram espaço à maturidade.

Esse encontro de expectativas, ansiedades e inseguranças são típicas do jovem profissional que a todo momento está planejando seu futuro. Foi sempre assim. Mas é claro, para quem vive o momento atual, nos parece que há uma particularidade importante: a mudança de paradigma imposto pelo meio digital.

Você é muito sábio ao identificar como diferentes mercados estão vivenciando conflitos por conta deste novo paradigma que se impõe. Começou com a indústria fonográfica, lutando contra o compartilhamento do MP3, depois a indústria fonográfica, o mercado editorial, o jornalismo, a televisão, a publicidade, as operadoras de telefonia, a airbnb e o uber.

Esse novo paradigma tem como base fundamental a participação da sociedade, a partir de conceitos como interatividade, colaboração e compartilhamento. É extremamente atrativa e tem avançado rapidamente, mas por vezes entra em conflito direto com modelos de negócios conservadores.
Além disso, esse novo paradigma impõe uma nova forma de produzir conteúdo e é esse ponto que bate de frente com a nossa atividade profissional.

Henry Jenkins, há algum tempo, tem observado a nova forma que a sociedade adotou para consumir informação. Em seu livro mais recente “Cultura da Conexão”, escrito em parceria com Joshua Green e Sam Ford, eles inauguram o conceito de “propagabilidade” para explicar como a distribuição de informação depende da participação das pessoas atualmente.

Aplicar esse conceito no campo da publicidade é o que traz insegurança para todos os profissionais dessa área afinal, é preciso rever todo um pensamento que já estava moldado em outra direção: da distribuição em massa e da recepção passiva.

Essa propaganda tradicional já era. Mensagens agressivas de venda já não fisgam mais ninguém. Anúncios disruptivos são ignorados (você citou o AdBlocker). É preciso reaprender a conversar com o consumidor. Note que eu disse “conversar” e não “falar”, pois a partir de agora tudo se trata de um diálogo e não mais um monólogo da marca. Nós, publicitários, sempre fomos moldados a desenvolver monólogos para as marcas.

Pois bem, dessa ideia é que surgiram discursos exaustivamente repetidos sobre a importância da publicidade tornar-se relevante para o consumidor. Hoje já avançamos nisso e o que tenho ouvido bastante é esse discurso que você mencionou: o publicitário deve mostrar ao consumidor como a marca pode ser seu parceiro para resolver problemas das pessoas.

Vou aproveitar e deixar outra dica: acrescente a essa ideia a importância da comunicação estar inserida no cotidiano do consumidor. Repense o papel do profissional de mídia, ele não precisa só identificar qual revista ou programa de TV o público consome. Ele precisa entender o cotidiano do consumidor. Saber o que ele faz durante a manhã, tarde e noite. Com essas informações e em conjunto com os demais profissionais da agência, ele será capaz de identificar como a marca pode participar do cotidiano desse consumidor e oferecer conteúdos ou serviços que auxiliem o dia a dia das pessoas. Esse é o caminho mais óbvio até agora.

Isso que acabei de citar acredito que vai de encontro com uma frase do artigo que gostei muito em que você diz que o publicitário deve “pensar em caminhos que realmente façam a diferença na vida das empresas e das pessoas.”

Sobre outra questão chave da sua angústia: o papel do publicitário. É fato que fomos obrigado no vestibular a escolher uma profissão: publicitário, relações públicas, jornalista, cineasta, etc. Minha percepção é a de que hoje essas divisões não são mais tão claras. Hoje o mercado exige um profissional híbrido.

Para quem trabalha em agência, minha recomendação sempre é: esqueça esses rótulos. Procure ampliar seu conhecimento em busca de uma formação múltipla. Apesar de dizerem por aí que especializar-se numa determinada função é importante, eu não tenho dúvidas de que um redator que entende muito de planejamento e mídia será muito bem valorizado. Melhor ainda se ele tiver alguma formação complementar na área de jornalismo ou televisão. Ou então, fuja de todos esses rótulos e faça cursos que explorem a criatividade e o pensamento fora da caixa.

Claro, cada profissional ainda deve possuir expertise naquela determinada função em que atua, mas a formação ampla e complementar só traz benefícios. Imagino que você concorde comigo já que também dá aulas e já frequentou Hyper Island, Mesa e Cadeira entre outros. Convido-o a reforçar a sugestão que deixo ao jovem em início de carreira: nunca deixe de aprender. Volte para a sala de aula. Faça cursos de especialização que complementem a sua formação original. Assim você vai se preparar melhor para o futuro que vem aí. Você é quem vai moldar esse futuro.

Em seu artigo pude perceber também que você já notou a movimentação no modelo de negócios da propaganda. Eu acredito que será cada vez mais natural ver produtoras de cinema equipadas com áreas de planejamento estratégico ou agências assumindo também o papel de produtoras de conteúdo. Agências contratando roteiristas. Produtoras de cinema contratando publicitários. Esse é o cenário que está se desenrolando. Logo o profissional híbrido, que entende tanto de planejamento estratégico quanto de roteiro, será muito valorizado.

Aliás, costumo dizer que nos tempos atuais, aprender a construir um bom roteiro é uma das disciplinas mais importantes para o profissional de comunicação. Afinal, o que importa é saber construir boas histórias. Isso é o que vai prender a atenção das pessoas com quem você quer falar. Não importa o veículo de comunicação. Pode ser no cinema ou no post do Facebook. A história precisa ser envolvente e relevante.

O cineasta precisa saber construir boas histórias sobre a vida das pessoas. Já o jornalista e o profissional de TV devem se atentar a construir histórias sobre o cotidiano das pessoas. E por fim, o publicitário e o relações públicas são aqueles que precisam construir boas histórias sobre como determinada marca pode colaborar com o cotidiano das pessoas. A diferenciação dos profissionais acaba sendo muito sutil. Somos todos profissionais de comunicação, capazes de contar boas histórias.

Espero que esse meu longo texto tenha aceso ao menos uma fagulha de esperança em relação ao futuro da sua carreira profissional.

Um grande abraço.

Veja a média salarial do mercado ou de uma empresa em particular

Mesmo que você seja da turma que odeia segundas-feiras, acredito que a plataforma Love Mondays vá interessar. O motivo é simples: ela revela dados da relação entre empresas e seus funcionários que até então eram difíceis de ter acesso. Qual o salário médio de um determinado cargo? Quanto uma empresa específica paga para cada cargo? Qual a opinião de quem trabalha lá?

Love Mondays é um ótimo exemplo da revolução que as redes sociais estão promovendo na percepção da nossa sociedade sobre o limite entre o que é público e o que é privado.

Por volta de 2003/2004, o Orkut causou bastante impacto no Brasil por tornar público, entre outras coisas, qual era a rede de relacionamentos de uma determinada pessoa. Revelou um dado que era difícil de ser obtido. Na época, algumas pessoas consideravam essa informação como algo de cunho privado e tiveram resistência em relação à essa invasão de privacidade que as redes sociais propunham.

Love Mondays quer tornar visíveis algumas informações que no mercado profissional nem sempre são obtidas facilmente. Deve promover uma grande revolução na relação entre empregado e empregador, com direito a grande resistência de muitas empresas. Se sobreviver às críticas e processos jurídicos, será considerada daqui alguns anos como uma importante personagem no processo de transparência do mercado.

É uma ferramenta importante para quem planeja sua carreira e está pensando em trocar de cargo e empresa. Estruturada por dados inseridos pelos próprios empregados, Love Mondays tende a ganhar importância e relevância conforme aumenta sua base de usuários. Havendo bastante investimento na divulgação da plataforma, não tenho dúvidas que essa startup brasileira vá causar ainda bastante barulho.




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Publicado originalmente no "Update or Die", em 11/05/2015.

O olhar mediado pelos dispositivos móveis


Cada vez que vou a um show ou vou conferir uma exposição fico impressionado ao notar como as redes sociais e os dispositivos móveis estão interferindo rapidamente em nossa cultura e na forma como vivemos essas experiências.  

O olhar mediado pelas telas e a compulsão pelo registro imagético não é novidade, mas o fato é que a cada dia surge uma nova página dessa história, trazendo novos aspectos. A supervalorização da imagem e a disposição pela exposição nas redes sociais tornaram a experiência de visitar uma exposição, algo completamente diferente do que já foi um dia. 

Não consigo mais visitar uma exposição e impactar-me apenas com a obra em si. Meu olhar se abre e fico atento não só à obra, mas também à perfomance do público entorno dela. Todos com suas extensões tecnológicas em punho, registrando e publicando insaciavelmente o que lhe aparece pela frente, sem dar atenção à pausa reflexiva que um leitor contemplativo costumava realizar quando em frente à uma obra artística.  

Na minha visão otimista, esse é um comportamento efêmero, típico desta nova fase de deslumbramento com as novidades oriundas das redes sociais. Logo passa. Porém reconheço que ainda assim, nada mais será como antes. 






 





A reclamação dos filhos agora é que seus pais não desgrudam do celular


Basta uma pesquisa de campo informal para notar: agora é a geração acima dos 45 anos que não larga do celular. 45, 50 ou 60 anos, não importa. Adultos completos. Não saem do celular. É o que ouço falar dos seus respectivos filhos.

Não quero dizer com isso, que os jovens abandonaram o mundo digital e jogaram fora seus iphones. Não, claro que não. Porém, eram eles - os jovens - acusados de uso exagerado das redes sociais e dos dispositivos móveis. Pois bem, vá num restaurante qualquer e observe os frequentadores com mais de 45 anos. É revelador. Não são – somente os jovens – que estão utilizando compulsivamente o celular.

Há nessa reflexão, dois pontos a considerar:

FATOR COMPORTAMENTAL – não podemos negar que nossa sociedade caminha para uma mesma direção, independentemente da idade que temos. Jovens, adultos ou idosos, estamos todos imersos – cada vez mais profundamente – numa sociedade em que a relação com o mundo se dá através da mediação da informática (faz tempo que você não vê essa palavra, hein?), em especial dos dispositivos móveis. Somos pressionados a atender todas os alertas e notificações que pipocam no celular, nos “wearable devices” etc. Em concomitância com outros fatores contemporâneos como o individualismo e o narcisismo exacerbado, acabamos por fim nos deparando com cenas um tanto incoerentes, como por exemplo, um casal jantando no restaurante, porém sem conversar entre si. Cada um atento ao seu próprio celular.

FATOR TECNOLÓGICO – parece-me que é fácil concluir neste aspecto que o surgimento de um novo meio de comunicação ou uma nova tecnologia da comunicação, obedece uma curva de adoção que invariavelmente atinge um pico em que é possível notar o uso exagerado da tecnologia e com o tempo, essa curva tende a descer até um ponto de equilíbrio. Esse comportamento se repete a cada geração, de acordo com a época em que ela foi adotada por aquele conjunto de pessoas. Em resumo: os jovens mergulharam na tecnologia e nas redes sociais mais cedo; alcançaram o pico da curva de adoção em que o uso excessivo causou um momento crítico e hoje é possível notar que os próprios jovens, discutem entre si os limites dessa relação. Chegaram até a inventar jogos que os proíbem de usar o celular quando estão juntos num bar ou na casa de um amigo. Aqueles que possuem mais de 45 anos, parecem passar agora por um processo muito semelhante.

Dentro dessa reflexão toda, é preciso considerar que o mundo caminha contra a possibilidade da “desconexão”. O crescente mercado dos “wearable devices” e da “internet das coisas” nos faz cada vez mais “conectados” e disponíveis para todas as variedades de “notificações” que as redes sociais e o “big data” podem oferecer. É preciso muita maturidade e senso crítico para viver nesse ambiente. Estamos prontos?


Crédito: Stephen McCulloch

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Publicado originalmente no "Update or Die", em 09/09/2014.

Panóptico Social: vigiados pelos próprios amigos


O avanço tecnológico ampliou as possibilidades de controle e vigilância. Máquinas de vigilância são implantadas em ambientes públicos e privados. Em cada esquina, em cada portaria ou em cada quarto de bebê.

Esse cenário já foi apontado faz tempo. O filósofo francês Michel Foucault utilizou a arquitetura de uma prisão para explicar o princípio do panóptico, em que é possível instalar nas pessoas o sentimento de constante vigilância sem necessariamente ver quem o vigia. O modelo do panóptico não estaria presente só na prisão, mas também em hospitais, escolas, fábricas etc. Ele chamou esse modelo de “sociedade disciplinar”, pois fora desenhada para moldar a sociedade conforme interesses do poder maior.

Mais recentemente, Zygmunt Bauman lança a ideia de pós-panoptico e de vigilância líquida para explicar a sociedade contemporânea. No pós-panóptico não há mais qualquer necessidade de um olhar centralizador para nos sentirmos vigiados. Não podemos mais ver claramente os pontos de vigilância. Somos controlados e vigiados a cada movimento. A disciplina se dá a partir da disposição do próprio ser. Deixar-se vigiar é uma questão de segurança própria.

Bauman é responsável pela ideia de modernidade líquida. Ele vai dizer que valores importantes para a sociedade como amor e privacidade não possuem mais uma definição tão sólida como em outros tempos. Claro, os valores são definidos e redefinidos ao longo do tempo, mas na sociedade contemporânea, ele entende que os conceitos são agora mais voláteis, maleáveis. Chegam a ser banalizados. O amor não é mais sólido. É líquido. Eu diria que hoje, há espaço para “diversas formas” de amor. Ama-se qualquer um. Ama-se qualquer coisa. Ama-se muito tudo isso.

Nesse contexto nasce também a ideia de vigilância líquida em que questões como anonimato e exposição são constantemente discutidas justamente por serem noções instáveis, flexíveis. Ele vê a big data como uma fonte inesgotável para a vigilância líquida, pois todo e qualquer rastro de uma pessoa é passível de ser identificado e capturado a qualquer momento.

Um bom exemplo foi o caso Snowden. Em 2013, Edward Snowden foi personagem importante do cenário político mundial por tornar público um projeto americano de vigilância digital. Snowden participava de um projeto que coletava informações privadas de emails e diversos outros rastros digitais de importantes políticos internacionais.

Note que há por trás um Estado exercendo o poder de vigilância não somente sobre uma nação, mas sobre todo o espectro global. Apesar dos conceitos propostos serem bastante amplos, é possível ver que no discurso de Foucault e Bauman há sempre um estado ou uma instituição exercendo o controle e a vigilância.


Panóptico Social

Interessa-me nesse momento, levantar outra vertente sobre o controle da sociedade em que faço uso da evolução do pensamento explicitada nesse texto - que nasceu em Foucault e se desenrola até Bauman - para lançar a ideia de panóptico social.

Não pretendo desmerecer a extrema importância de atentarmos para os mecanismos de vigilância existentes na era digital que propiciam o controle onipresente do estado sobre o povo, mas deixo essa responsabilidade para Bauman e seus seguidores.

O termo panóptico social vai em outra direção; quer realçar um cenário em que a sociedade exerce um papel de autocontrole e vigilância, desenhado a partir de um movimento concomitante da evolução da tecnologia digital e o advento das plataformas de relacionamento.

De um lado, surgem os dispositivos que permitem filmar, identificar, registrar e rastrear dados sobre si próprios. Do outro, surgem plataformas que permitem a essas pessoas, compartilhar essas informações com seus pares. Note que há aqui, portanto, um diálogo importante entre a disposição pela exposição da sociedade e o desenvolvimento de plataformas de redes sociais.

Assim como na proposta de pós-panóptico de Bauman, já não existe mais a referência arquitetônica, pois tanto não há espaço físico, como não há um centro de vigilância. São apenas publicações em redes sociais. Ainda assim, há a constante impressão de ser vigiado.

Porém, quando utilizo o termo panóptico social quero ressaltar o poder estabelecido pela própria sociedade de controle sobre si, sem uma referência a um poder político ou religioso.

No panóptico social, é a própria sociedade que começa a definir seus limites. Isso é visível nos comentários que acompanham todas as publicações feitas diariamente pelos usuários nas redes sociais.

Ela colabora com a construção - em tempo real - de uma noção de moral e ética que é latente o maleável, por isso, vai de encontro com a proposta da sociedade líquida de Bauman.

As redes sociais são agentes desse apoderamento da sociedade. É a partir delas que um usuário comum exerce sua tarefa de vigilância sobre os atos dos seus “amigos”.  É sobre esse leito que estamos redefinindo a noção de privacidade, por exemplo.

Farei uso de um exemplo. Considere o fenômeno recente conhecido como “selfie”. O ato de registrar uma imagem fotográfica de si próprio e publicá-la na internet é um movimento natural de uma sociedade narcísica. Apesar da cultura de cada povo ter uma aceitação diferente para esse ato, pode-se dizer que se trata de um fenômeno global.

Além da publicação, há ainda dentro desse fenômeno o interesse pela propagação dessa imagem. Vê-se, portanto, que a disposição pela exposição é um conceito bastante importante e constantemente discutido.

O selfie mais famoso e mais compartilhado até agora aconteceu durante a cerimônia de premiação do Oscar 2014, nos EUA.

A apresentadora e comediante americana Ellen DeGeneres chamou alguns atores que estavam na plateia para fazer uma foto ao estilo “selfie”. Na sequencia, convocou a sua audiência para propagar a imagem pelo Twitter. Em menos de 45 minutos a imagem foi compartilhada mais de 1 milhão de vezes. No dia seguinte, já eram mais de 2 milhões de compartilhamentos.

Porém, engana-se aquele que vê esses números e pensa que a noção de exposição e o fenômeno do selfie é algo completamente aceito e estabelecido. No contexto do panóptico social, há sempre usuários prontos para criticar e a partir disso, reacender a discussão coletiva sobre as bases morais e éticas desse fenômeno.





Ambientes Digitais X Espaços Físico
O que acontece na rede se desenrola no cotidiano da sociedade, também fora da rede. Não podemos esquecer que o mundo digital que construímos não está descolado da realidade. Ele é apenas um espelho que amplifica e torna visível aspectos - algumas vezes pouco evidentes -  de nós mesmos.

Um exemplo para clarificar é o caso da professora carioca que publicou em seu perfil no Facebook uma foto criticando a roupa de outra pessoa que estava no mesmo ambiente que ela.

Mais uma vez, um exemplo típico do panóptico social em ação. O curioso deste caso é que a imagem propagou de tal maneira que chegou até o próprio indivíduo que aparece na foto, que por sua vez, ameaçou abrir um processo jurídico contra a autora da imagem. Assim, reacende a discussão sobre privacidade e como disse, reafirma minha tese de uma sociedade que está em constante reformulação de seus limites.

Claro que a renegociação das relações e valores de uma sociedade é um movimento constante e natural, porém na sociedade contemporânea, o surgimento das plataformas digitais não só acelerou esse processo, como tornou visível.


Anonimato
Para finalizar, é importante observar que o panóptico social está diretamente associado a um contexto em que a privacidade e a exposição são conceitos amplamente discutidos sendo muitas vezes, incompreendidos e banalizados.

Em tempos de panóptico social, o anonimato ganha status de luxo. Torna-se desejo de consumo. É bem provável que os novos produtos de consumo venham amarrados à ideia de anonimato. Logo veremos ganhar popularidade, plataformas sociais que lidam com a relação entre exposição e anonimato. Uma "exposição anônima".

Há algumas experiências nesse sentido como as plataformas Secret, WUT e Whisper. Eu ficaria de olho nessa tendência.

Manter-se anônimo dentro ou fora da rede sempre foi um desejo daqueles que lidavam profissionalmente com a exposição excessiva. Agora que vivemos num mundo em que todos já alcançaram seus 15 minutos infindáveis de fama, o anonimato torna-se um recurso escasso e objeto de desejo.



Sugestões de leitura complementar:

  • CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
  • CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: A era da Informação. 18ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2005.
  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Ed. Vozes, 2007. 
  • ZYGMUNT, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
  • ZYGMUNT, Zygmunt & LYON, David. Vigilância líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2014. 


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Publicado originalmente no "Update or Die", em 02/08/2014.

Um novo modelo de negócios para a indústria da música

Spotify é lançado oficialmente no Brasil

Gustavo Diament (Spotify LATAM), durante evento de lançamento. 


O lançamento oficial do Spotify no Brasil vai além da oferta de uma nova plataforma de entretenimento para o brasileiro. É uma oportunidade para estimular e popularizar um novo modelo de negócios e até mesmo de consumo da música.

No princípio, o meio digital surgiu como uma catástrofe para a indústria musical. Bandas, gravadoras e distribuidoras viram-se num beco sem saída frente à cultura do compartilhamento. O meio digital mostrou que a mídia física (cd, vinil, k7 etc) estava com os dias contados e que a distribuição em rede era inevitável. Nesse período a pirataria reinou.

Apesar de não ser a única a trabalhar num novo modelo, em 2003 quem ganhou destaque foi a Apple com o lançamento da loja online “iTunes Store”. O consumidor começou a experimentar a possibilidade de comprar o arquivo digital do álbum de uma banda ou mesmo só de uma das músicas do álbum ao custo de U$0,99 por música.

Na época, a popularização da compra online de músicas por U$0,99 deixou evidente um caminho possível para a indústria musical. Hoje vivemos uma nova fase dessa evolução que vem de encontro com tendências como a disposição de dados infinitos na “nuvem” do meio digital e a ideia de não consumir mais a partir do conceito de “possuir” mas de “usufruir”.

Ao invés de comprar e guardar para si música por música, o Spotify faz outra oferta às pessoas: ele oferece uma plataforma em que o usuário pode ouvir toda e qualquer música que desejar, quantas vezes quiser, pagando por isso uma taxa mensal. Ou se preferir, pode optar por um pacote gratuito, em que a remuneração é feita a partir de espaços publicitários.

É o Netflix do mundo da música. E provavelmente, vai provocar o mesmo estardalhaço que o Netflix tem causado no mercado audiovisual.

Marcelo Jeneci, Fernanda Takai e Gaby Amarantos com Gustavo Diament.

No campo da música, o Spotify não está sozinho nem foi o primeiro a chegar no Brasil. As plataformas Rdio, Deezer, Napster, entre outras já veem ganhando muitos usuários brasileiros e ajudando a construir essa cultura de consumo a partir do pagamento de uma taxa mensal.

O Spotify é oferecido em dois formatos: um pacote gratuito que permite ouvir online todas as músicas (mas não oferece a possibilidade de ouvir off-line) e um pacote premium que não possui nenhuma limitação e desabilita os anúncios publicitários entre uma música e outra. No Brasil esse pacote premium vai custar R$14,90/mês (por enquanto é vendido apenas através de pagamento internacional no valor de U$5,99/mês).

Minha curiosidade está na possibilidade de plataformas como o Spotify mudarem o hábito de consumo de música da sociedade.

O Spotify estimula um consumo mais personalizado, curado e social. Você pode ouvir uma seleção de músicas criada por você ou criada colaborativamente a partir das sugestões de amigos seus.  Se preferir, você pode ouvir seleções criadas por outras pessoas ou mesmo personalidades/ícones de diferentes áreas.



Você pode usar o Spotify no seu computador; em casa ou no trabalho, ou pode usar o aplicativo para celular e conectá-lo com o equipamento de som de sala de estar ou do carro. Assim, a plataforma está presente em diferentes momentos do seu dia.

Em particular, durante minha experiência de uso, fiquei bastante impressionado com a eficiência da transmissão online de músicas usando a internet do celular. Tenho utilizado diariamente o Spotify enquanto estou no carro e o impacto no consumo do pacote de dados do celular foi menor do que eu imaginava.

Por essas e outras, o Spotify é hoje a segunda maior fonte de receita da indústria da música no mundo. Em menos de 6 anos de vida, já possui mais de 40 milhões de usuários ativos no mundo. Destes, 10 milhões são assinantes da conta premium. Já são mais de 30 milhões de músicas disponíveis e 1,5 bilhão de playlists criadas dentro da plataforma. A cada dia, 20 mil novas músicas são adicionadas. Para quem é do mercado da música, parece-me um modelo de negócios que deve ser acompanhado de perto.





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Publicado originalmente no Update or Die, em 28/06/2014.

Privacidade na era do Big Data

O que você faz entre quatro paredes não interessa a mais ninguém além de você,
por isso não deveria ser registrado no celular.

A internet e as redes sociais propuseram uma nova dinâmica para o compartilhamento de informações em nossa sociedade. Esse dinamismo parece estimular uma “exposição voluntária” do indivíduo. É muito comum ver pessoas tornando públicas informações que décadas anteriores eram consideradas “privadas”.

Na era do big data, diversas informações sobre um mesmo indivíduo são registradas na internet. Há diferentes desdobramentos para um fato tão importante como esse. O mais óbvio é a possibilidade de rastreio e vigilância de uma determinada pessoa. O ex-funcionário da CIA, Edward Snowden, tornou público em 2013, um programa de vigilância do governo americano. Sob certo aspecto, é válido considerar que antes mesmo do governo, a própria sociedade passa o dia vigiando e controlando os passos digitais de seus amigos pelas redes sociais.

A disposição pela exposição é o artifício por trás de qualquer rede social. Esse artifício também está presente em muitas das campanhas de comunicação e ações inovadoras que apresentam características colaborativas e interativas. Por trás há sempre algum aspecto que envolve a exposição do consumidor. Hoje o consumidor quer participar da propaganda, algo pouco comum antigamente.

Esse é o cenário atual, é onde nos encontramos. Não pense que você está isento, escondendo-se atrás das configurações de privacidade do Facebook. Se você gosta de brincar de Instagram no seu iPhone, então você faz parte dessa sociedade da (auto)exposição. Manter o perfil do Instagram fechado apenas restringe sua audiência, nada mais do que isso. Você não tem controle completo sobre sua imagem na rede. Na era do big data, há mais rastros digitais sobre nossas vidas do que imaginamos.

Numa rápida consulta à web, todos saberão em qual classificação um determinado jovem estudante entrou na universidade. Nos anos seguintes, se ele ganhar algum concurso, isso também ficará registrado na internet. Quando casar, com certeza o fotógrafo da cerimônia aproveitará algumas fotos para o seu portfolio online. O videomaker publicará no Youtube. Se um dia ele participar de um processo judicial, isso será registrado na internet. Conclusão: você estará na web, seja por vontade própria, ou não.

Assim, não é a configuração do seu perfil que vai salvar sua reputação, mas a consciência crítica de tudo que é publicado. Vou mais longe, a consciência dos seus atos públicos. O que você faz entre quatro paredes não interessa a mais ninguém além de você, por isso não deveria nem ser registrado no celular. Já o que acontece além dessas paredes pode cair na rede com mais facilidade, mesmo sem a sua intenção. Esteja ciente disso.


Crédito da imagem: John Morgan
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Publicado originalmente no blog Just Cool em XX/05/2014. 


Globo vai colocar personagem da novela dentro do Big Brother #bbb14


Há alguns anos a Rede Globo tem mostrado abertura para experiências a caminho de uma nova dinâmica de relacionamento com o público. Televisão não é mais o mainstream da sociedade, e a emissora já percebeu isso.

Dentro da internet a Globo ainda não encontrou o melhor formato. Seu portal não nunca foi bem explorado; e ela é avessa à grandes investimentos dentro de plataformas sociais como o Facebook. Agora em 2014 a emissora começou uma nova investida, lançando o portal de entretenimento Gshow, que deve conter inclusive, produções próprias.

Em relação à sua grade de programação, ao longo dos últimos anos a emissora realizou algumas experiências que alcançaram resultados positivos. Um bom exemplo foi a ação transmidiática realizada com o clipe musical das Empreguetes, personagens da novela Cheias de Charme. O clipe foi publicado na internet junto com a exibição do episódio. O clipe em si nunca foi exibido durante novela. A viralização espontânea do clipe na internet foi considerável e mostrou à Globo o potencial da aplicação de estratégias de transmídia e da interrelação entre a TV e a internet.

Desta vez a TV Globo pretende realizar mais uma experiência inovadora para a emissora. Nesta terça-feira, durante a exibição do episódio da novela Amor à Vida,  a personagem Valdirene vai realizar seu sonho a caminho da fama: ela será anunciada como uma das integrantes a entrar na casa do Big Brother Brasil 14.

Assim que terminar a novela, estreia a nova edição do Big Brother Brasil e a personagem Valdirene, estará lá, entre os participantes do programa.

Sua presença no programa está programada para durar os dois primeiros dias de confinamento. Até lá, a atriz Tatá Werneck representará a personagem Valdirene sem roteiro pré-definido. Tudo sob a bandeira da livre experiência. Após sua saída do Big Brother, a personagem retornará à novela e com certeza serão feitas referências aos seus dias na casa do Big Brother Brasil.

Com essa estratégia, a Globo busca trazer inovação para a sua programação e assim, atender à expectativa de um telespectador que não tem mais o mesmo comportamento do telespectador de 30 anos atrás.

A integração do personagem da novela Amor à Vida, dentro do Big Brother Brasil, cria uma conexão na programação da emissora e ajuda a carregar a audiência de um programa para o outro. De quebra, estimula a repercussão nas redes sociais, consideradas hoje, a segunda tela e companheira inseparável do novo telespectador.

Uma loja online onde homens são oferecidos como produtos


Logo após toda a polêmica sobre o aplicativo LULU - em que as mulheres podem categorizar e dar nota para os homens que fazem parte da sua rede de contatos no Facebook - chegou em casa uma carta "diretamente da França" com material de lançamento do portal adoteumcara.com.br; um site onde os homens são tratados como produtos e as mulheres podem "colocar no carrinho" aqueles que mais gostarem.

Em julho eu já havia antecipado aqui no blog o lançamento desse portal no Brasil. Estou curioso para saber como será a receptividade dos brasileiros. Porém, é preciso ser claro e salientar que o "Adote Um Cara" não se compara diretamente com a proposta do aplicativo Lulu.

"Adote Um Cara" é uma plataforma de relacionamento que promove encontros, como os já conhecidos parperfeito.com.br, eharmony.com.br e o br.match.com. Porém tanto a proposta quanto a linguagem visual são bem diferentes.

No "Adote Um Cara" são as mulheres que estão no comando da plataforma. Os homens só conseguem estabelecer contato com alguma mulher se ela colocá-lo em seu "carrinho de compras". Assim, a abordagem escolhida de "loja online" em que os homens são "produtos" é a forma descontraída encontrada pela plataforma para promover a aproximação de casais.

O foco da plataforma é atingir jovens entre 18 e 30 anos. Na França, onde a plataforma nasceu, já são mais de 7 milhões de usuários. Será que no Brasil ele consegue ganhar destaque entre os atuais portais de relacionamento? Tudo depende de como o público brasileiros vai encarar essa visão consumista do relacionamento amoroso.






Mais casos sobre exposição nas redes e panóptico social

Quem acompanha o blog, sabe que um tema frequente aqui é o questionamento sobre a atual "era da exposição" (nas redes) e aquilo que tenho chamado de "panóptico social", ou seja, a vigilância que a sociedade impõe a si mesma, dentro das redes sociais.

um outro post que trata desse assunto de forma mais reflexiva. Desta vez quero levantar casos práticos. Na última segunda-feira (09/12/13) duas notícias envolveram essas mesmas questões, porém de maneiras diferentes:

#01
Fotos da filha do ex-jogador Renato Gaúcho (Carol Portaluppi), completamente nua, foram expostas nas redes sociais sem a sua autorização. Provavelmente retiradas de seu celular, que foi roubado dias antes. Ela e a família estão sofrendo com a propagação espontânea de imagens não autorizadas, caso semelhante ao que sempre aconteceu com celebridades, mas que na era das redes sociais, ganha uma nova dimensão.



#02
A briga entre torcedores do Atlético-PR e Vasco no domingo (08/12/13) promoveu na segunda-feira uma reação já comum entre os usuários assíduos das redes sociais: uma corrida para identificar o perfil nas redes sociais dos envolvidos.

Ato bastante positivo sob o ponto de vista da participação e mobilização social, porém o Allisson Rafael, de Pernambuco, foi identificado erroneamente (brincadeira de um amigo) e em seu perfil, foi obrigado a prestar esclarecimentos para a enxurradas de pessoas que começaram a publicar mensagens de ódio contra ele.



Nesse caso da briga entre os torcedores dos times, é a sensação de colaboração com a justiça que move as pessoas a identificar infratores da lei nas redes sociais, porém, há aí um limite entre colaboração e efetiva aplicação da justiça.

Nas redes sociais, conseguimos identificar pessoas, talvez com uma agilidade até maior do que nossa polícia; e a rápida disseminação dessa informação, pode promover uma mobilização social contra essa pessoa, o que por sua vez, pode levar à realização da "justiça com as próprias mãos".

É preciso ter senso crítico e consciência, pois esse movimento levaria nossa sociedade à barbárie. Uma anarquia estimulada pelas redes sociais.

Maturidade em relação ao uso das redes sociais e consciência crítica sobre seus próprios atos é o que falta também no caso da Carol Portaluppi e tantas outras garotas que já tiveram fotos nuas expostas indevidamente na internet.

Casos assim podem levar à um movimento que hoje chamamos de bullying virtual ou cyberbullying e as consequências psicológicas podem ser incontornáveis, e em situações extremas, causando o suicídio da menina envolvida, como já aconteceu em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.

A falta de maturidade vem de ambas as partes. Daquele que promove a propagação das imagens pela rede, pois desconhece o alcance que a repercussão pode ter (e as possíveis consequências para a pessoa envolvida); e também das pessoas que armazenam fotos em celulares e computadores acreditando que ali tais imagens estão reservadas somente para sí, quando na verdade, qualquer imagem digital é passível de propagação nas redes, seja propositalmente ou não. Algumas vezes, um simples descuido de configuração dos aplicativos pode acionar a publicação da imagem na internet.

Como conclusão, vemos que fatos como esses dois que citei são recorrentes e estão longe de serem os únicos. São na verdade, consequências corriqueiras de uma sociedade ainda ingênua em relação à dinâmica das redes sociais e que está aprendendo e negociando os limites da exposição e do comportamento social nessas plataformas digitais.





#infográfico: Brasileiro quer vídeo online!

por Paula Zanardi (Mavens).

Confira aqui os dados interessantes que este infográfico traz sobre o consumo de vídeo online no Brasil. Quais portais você mais usa para acessar vídeos online? Como isso funciona para os smartphones? Veja como os vídeos que você acessa refletem no cenário brasileiro.

As estatísticas apresentadas neste infográfico apontam que o YouTube é o portal mais acessado para assistir vídeos online no Brasil. Com mais de 38 milhões de acessos só em dezembro de 2012 o portal está muito a frente do Vevo; o segundo colocado consta com 17 milhões de acessos, nem a metade dos acessados pelo favorito entre os brasileiros.

A análise para os smartphones sofre uma variação, pois inclui categorias mais específicas para o aparelho, como os apps: 49% dos usuários brasileiros assistem seus vídeos diretamente de seus apps. Contudo ainda 64% afirmam acessar pelo browser do navegador e 38% fazem download de clips. Ainda que seja acessado pelo browser e não pelo aplicativo, o YouTube tem seu site adaptado para mobiles, o que facilita o carregamento da página e pode explicar, em partes, o alto número de acessos.

Outro dado surpreendente é a frequencia com a qual assistimos vídeos pelos smartphones. 45% dos usuários assistem vídeos pelo menos uma vez por dia! Um consumo tão alto de vídeos pelos aparelhos aponta para um alto desenvolvimento da tecnologia, afinal ninguém quer ver vídeo sem definição, ou tendo que pausar a cada minuto. Para uma boa visualização é necessário um bom streaming destes vídeos, aí os planos de internet 3G e 4G fazem a diferença, o aparelho também afeta a experiência do usuário, um bom audio e telas maiores fazem a experiência mais agradável, atualmente existem modelos de smartphones com tela de alta definição como os BlackBerry 10 que têm nitidez de 355 ppi.

O fato é que os vídeos online estão se transformando em uma grande ferramenta para novos negócios e mercados que queiram expandir suas áreas de atuação, dado que cada brasileiro, entre os que acessam conteúdos online, assiste em média 174 vídeos por mês.



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Contribuição da agência Mavens (Londres) para o blog e-Code. Artigo escrito por Paula Zanardi.
Imagem: 

Síntese sobre o panóptico social na era da exposição

Somos vigiados pelos nossos próprios amigos.



A ideia de panóptico social vem de uma teoria que levantei alguns anos atrás: vivemos uma época em que a exposição do cotidiano ganhou o interesse da sociedade. Chamo isso de “era da exposição”.

Chegamos nesse cenário por conta não só do surgimento de plataformas de redes sociais, mas pela evolução da própria sociedade. Da valorização da imagem para a sociedade do espetáculo e por aí adiante. Na televisão essa valorização do cotidiano teve início com os reality shows. A onda era ver gente comum. Um recorte amplificado do que é parte da realidade cotidiana.

Daí, do reality show para os blogs e perfis nas redes sociais foi um pulo natural. Agora o show da vida cotidiana e da loucura de cada um de nós é exposta para milhões sem a necessidade de passar pelo aval de uma emissora de TV.

Pois bem, tudo isso já é realidade.  Nos vemos no seguinte cenário: somos vigiados pelos nossos próprios amigos.

Quando você acessa o twitter, facebook ou google+, a primeira tela que lhe aparece não são informações suas ou então notícias da imprensa. São as publicações dos demais usuários. Você é convidado pela plataforma a constantemente acompanhar o que os outros estão expondo a cada minuto.

As adolescentes já ganharam o costume de publicar fotos do seu “look do dia” e esperar pela “reação” da sua audiência nas redes.

Esse comportamento faz com que não só o estilo visual, mas todo o comportamento daquela pessoa seja pautado pela opinião do outro. Nada mais natural do que já acontece há décadas dentro de qualquer escola. A diferença é que o meio digital oferece uma amplificação dessa exposição. A audiência agora não são apenas os colegas da escola, da mesma idade e perfil social. A audiência agora é global e ainda estamos descobrindo as possíveis ramificações que isso pode gerar. Muda também a velocidade com que a evolução do processo social ocorre. O desenvolvimento da moda, por exemplo, ganha uma nova dinâmica com a interferência do compartilhamento nas redes. Os mais conservadores ficariam aterrorizados em ver a rapidez com que o tamanho de uma mini saia diminui e o decote aumenta dentro de um instagram ou dujour.

Outro ponto: o costume em opinar frequentemente sobre o que é publicado pelos amigos vai se intensificando a ponto de abrir espaço para as críticas. Passa a ser “natural” criticar nas redes as atitudes do outro. Algumas vezes chega a ser uma espécie de bullying disfarçado de auto-regulamentação da moral nas redes.

É claro, há por trás disso situações clássicas e atemporais, como o confronto das classes sociais. Conforme cresce a popularização dos smartphones e consequentemente das redes sociais, mais choques culturais ocorrerão.

Porém não é só isso, há ainda uma indefinição em jogo na relação do discurso privado e  público.  Estamos - ainda - definindo limites, e em situações assim, cometemos exageros, tanto do lado de quem publica quanto de quem critica. Há o caso da carteirada da blogueira da Capricho, do post com dias de como viajar com babás e o vídeo do menino Nissin e a baleia. Além destes, vale refletir sobre as consequências do panóptico social (que se transformou num verdadeiro cyberbullying) ocorrido numa única foto publicada pela menina Julia Gabrielle.

Enfim, somos vigiados. Não só pelo governo. Antes pensávamos que a vigilância ganharia real abrangência conforme o desenvolvimento tecnológico. Estávamos certos, mas acreditávamos que haveria por trás um único órgão gestor da vigilância. Quem sabe um governo autoritário, ou talvez as próprias máquinas quando alcançassem autonomia e inteligência. Pois bem, hoje o poder maior que nos rege é a própria sociedade em rede. Nada mais óbvio. Ponto para Manuel Castells e Pierre Lévy.

Eu já disse num outro texto: estamos constituindo uma sociedade da vigilância, semelhante às ideias
de Foucault, porém agora o modelo do panóptico é social, é colaborativo. A sociedade vigia a si mesma, através das redes sociais. O "grande irmão" (de George Orwell), no final das contas, somos nós
mesmos.

O controle parece o mesmo de sempre, mas foi amplificado e tornou-se público. Mães e pais sentem-se inseguros com o que seus filhos publicam nas redes. Um delinquente marginal, um assaltante ou um pedófilo podem começar a “stalkear” e tentar uma aproximação pelas redes.

Já por sua vez, filhos de todas as idades, sentem-se completamente expostos frente a seus amigos por conta do que seus pais publicam nas redes. Uma mãe que “curte” tudo aquilo que o filho publica pode causar uma desmoralização do filho sem se dar conta disso.

Ambos os casos são motivos suficientes pra tanto pais como filhos começarem a criticar e controlar o que o outro torna público nas redes.

Piores são os casos em que a exposição ganha proporções que ultrapassam o círculo de amizade daquela pessoa. Quando isso acontece, as críticas ganham de fato um aspecto de linchamento social. Merecido talvez, mas nem sempre.

Quem já vivencia o ambiente das redes sociais no dia-a-dia - talvez - esteja mais maduro para compreender seus desdobramentos. Quem está criando agora seu perfil na rede corre risco de cometer gafes sociais por conta da sua ingenuidade com esse meio. Na ânsia de ajudar o amigo, os usuários "experientes" acabam às vezes ultrapassando o limite que separa o "mero conselho" do "controle social". Esse é o nosso panóptico social de todos os dias. Será que eu deveria ter publicado isso? ;-)




Nada se cria, tudo se ressignifica

Uma recomendação para os profissionais que dependem da criatividade



Fiz uma adaptação do clichê conhecido por todos para tirar dele o aspecto negativo e mostrar que durante o processo criativo, é fundamental ter repertório/referências.

Quero falar desse processo criativo sem entrar nas diversas teorias da criatividade. Utilizarei apenas a semiótica como fio condutor do pensamento.

É simples assim: para gerar algo novo, nossa mente parte do conhecimento apreendido anteriormente e elabora transformações que resultam numa solução até então desconhecida.

Algo semelhante à onda dos mashups ou dos memes que rolam pelas redes sociais. O mashup é um termo utilizado para conteúdos (uma música, um site, um vídeo etc) criados a partir da mescla de diversos outros conteúdos. Já o meme é a unidade mínima da memória e faz parte da evolução cultural do homem. É a replicação e transformação dos memes que constrói a evolução do conhecimento do homem. No âmbito das redes sociais o termo meme foi utilizado para designar aquele processo em que alguém vê um vídeo ou uma foto e resolve reproduzir “ao seu modo”. Mais alguém faz o mesmo, mais outro e assim por diante. Depois de algum tempo teremos uma variação enorme de criações (ex. "Fica, vai ter bolo.").

Estes dois modelos ilustram bem como funciona o processo de ressignificação na semiótica. Tudo o que representa algo para alguém - o signo - é que gera um novo signo e assim por diante. Conclusão: se você quer “criar” algo (signo) você precisa de repertório (outros signos).

O processo de ressignificação é tão contínuo e dinâmico que muitas vezes você nem é capaz de identificar qual foi a origem do processo criativo. No caso do mashup e do meme ainda é possível perceber a origem do processo, mas quando isso ocorre na nossa mente, a elaboração é tão densa que em geral a criatividade parece surgir “do nada”. São na verdade, referências tão profundas que já não se pode mais identificar.

Assim, a ressignificação não é a cópia ou o plágio. Trata-se de repertório. A proposta não é fazer algo igual ao que você viu anteriormente, mas utilizar as referências como combustível da sua criatividade.

É por isso que os criativos das agências de publicidade adoram visitar o MoMA. Estão em busca de referências da linguagem artísticas para alimentar suas mentes e transformar tudo isso em algo novo dentro da linguagem publicitária.

A av. Paulista é um espelho do Facebook #VemPraRua #protestoSP #ChangeBrazil

A conversação das redes foi pra rua protestar, mas ainda não atingiu sua maturidade.



Esse não é um texto político. Faço aqui uma breve reflexão sobre a influência dos meios de massa e da comunicação em rede durante o processo de mobilização das recentes manifestações ocorridas em São Paulo.

Claro, os protestos ocorreram em todo o país, mas fico restrito aonde tenho mais propriedade, pois alguns dos fatos que vou ressaltar aqui foram exclusivos dos protestos paulistanos.

Ao ser breve nessa minha apresentação de ideias, incorro em falhas no discurso e má interpretações. Assumo esse risco em prol de que você leia até o fim.

O fato é que no princípio, as manifestações tinham um foco bem claro e definido: discutir o aumento da tarifa dos transportes públicos. Outro fato: durante as primeiras passeatas, alguns manifestantes chegaram a depredar espaços públicos e privados.

Por conta dessa depredação, o evento ganhou atenção da imprensa. Na quinta-feira (13/06/13) a manifestação foi fortemente oprimida pela polícia e tudo foi acompanhado pela população através dos veículos de massa.

Essa exposição foi amplificada nas redes sociais e ganhou destaque em meio à conversação frequente e contínua, própria desse meio. O assunto era a repressão policial e a generalização da imprensa ao rotular os manifestantes como vândalos.

Isso foi motivo para que dentro do Facebook, fosse criado um movimento em prol daqueles manifestantes do dia anterior. Estava dado aí, o início de uma mobilização que ganhou proporções nunca antes vistas pelos brasileiros nas redes sociais.

O evento criado no Facebook convocava os jovens a irem às ruas, aumentar o coro dos descontentes. E assim aconteceu. Na segunda semana de manifestações, o número de participantes alcançou algo pouco visto nas últimas décadas. A ilustração utilizada pelos próprios jovens foi: “o gigante deitado em berço esplendido havia finalmente, acordado”.

Note como há, nessa cronologia de fatos, um papel muito importante e simbiótico na relação dos meios de massa e das plataformas das redes sociais. É a imprensa através do veículo de massa que consegue acionar uma grande quantidade de pessoas a favor de um mesmo assunto. E as redes por sua vez, permitem a mobilização do povo numa velocidade nunca antes assistida por qualquer governo.

É essa organização e propagação de informações através das redes sociais que gerou grandes e importantes manifestações nos últimos anos como o #occupyWallStreet (EUA), #occupyGezi (Turquia), as revoltas no Egito, Tunísia etc.

Porém, a agilidade da mobilização por vezes pode impedir a maturidade do discurso.

Acredito que alguns daqueles que participaram das manifestações da segunda semana provavelmente tiveram a impressão de estarem num Facebook a céu aberto. Seja no Largo da Batata, na av. Paulista ou na ponte estaiada, o que se via era uma massa enorme de pessoas que vista de perto, era formada por centenas de microgrupos. Amigos que se reuniram por conta da insatisfação com o governo, mas que muitas vezes o foco da insatisfação não era o mesmo dos outros grupos ali presentes.

Assim, em meio à caminhada, esses grupos conversavam e discutiam os ideais daquele movimento. Bem ao modo como fazemos nas redes sociais, só que ao vivo, no meio da av. Paulista.

Cada um estava presente por uma causa diferente. Alguns chegaram a reivindicar o direito de definir o propósito da manifestação, mas ninguém chegou a um acordo. Tanto é assim que muitas vezes era difícil até definir qual rumo a passeata iria tomar, quais ruas percorrer. E após alcançar o ponto final da passeata, ninguém sabia a hora de ir embora.

A cada manifestação, o que se via no dia seguinte era o desenrolar do debate nas redes sociais. Vale ressaltar que por natureza, tais espaços são pluritemáticos, porém o que se viu durante aquela semana é que não havia outro assunto dentro do Facebook que não envolvesse as manifestações.

A mim, toda essa discussão nas redes (e nas ruas) me soa como a construção em tempo real da inteligência coletiva muito discutida pelo filósofo Pierre Lévy. Porém neste caso, no que se refere exclusivamente à construção de uma consciência política.

Assim, o que pretendo alcançar com esse texto é: Lévy, provavelmente concordaria comigo em dizer que o tempo é essencial para a construção do conhecimento coletivo.

O desenvolvimento desse conhecimento crítico exige tempo para a reflexão e com isso, alcançar maturidade. Quando ela é ainda emergente e foi pouco debatida, sofre com a ingenuidade e a cegueira.

É preciso lembrar que o tal “gigante adormecido” passou muito tempo distante da política e do pensamento crítico sobre os atos do governo. Ao revoltar-se contra a situação política do país, o gigante só consegue deixar evidente a sua insatisfação, mas não sabe ao certo o que exigir.

Nesse caminho pela construção do pensamento, surge mais uma vez a importância dos meios de comunicação.

A televisão já é velha conhecida da nossa sociedade. Por isso somos mais maduros na relação que construímos com esse meio. Não acreditamos em tudo o que vemos na TV (como fazíamos décadas passadas); e sabemos criticar quando, por exemplo, a imprensa generaliza os manifestantes chamando-os de vândalos. Não somos mais ingênuos em relação à TV. O mesmo não ocorre com as redes sociais.

Minha teoria é a de que somos ainda muito imaturos na relação com as redes sociais. Falta-nos ainda definir os limites desse meio. Por conta desse processo a caminho do amadurecimento, vivemos hoje o que caracterizei como “panóptico social”. Queremos moldar o discurso das redes. É crescente o hábito de expor o que se pode ou não, fazer/dizer nas redes. Hoje somos vigiados pelos nossos próprios pares.

Essa dinâmica do “panóptico social” parece ter invadido também as manifestações em São Paulo. Para evitar a ação de partidos que pretendiam tirar proveito da manifestação, declarou-se o grito de guerra “Sem partido!”. Isso estimulou o discurso apartidário e abriu espaço para uma vigilância contra toda e qualquer expressão a favor de algum ideal. O “panóptico social” instalou-se na av. Paulista de tal forma que cada causa levantada num cartaz, era criticada por algum grupo ali presente.

Isso causou um princípio de divergência entre os microgrupos e possivelmente pode até levar à pulverização do movimento, já que alguns grupos começaram a promover mobilizações paralelas.

De qualquer maneira, não nego meu orgulho em ver nascer nas redes sociais, uma mobilização que de fato gerou uma manifestação real, na av. Paulista, no Largo da Batata, na ponte estaiada e tantos outros lugares. Forte, constante e que deixou marcado o descontentamento de uma nação.

O que falta agora é validar o discurso. Construir naqueles jovens que se organizaram pelo Facebook um senso crítico sobre a política brasileira. Sei que entre os manifestantes, haviam jovens politizados que inclusive já faziam parte de movimentos políticos antes mesmo das manifestações. Porém estes jovens eram minoria. A grande massa que se organizou pelas redes sociais estava participando pela primeira vez de uma passeata contra o governo.

É preciso voltar para as redes e continuar a conversação. Persistir com o discurso político. Quem sabe inclusive desenvolver plataformas dentre da internet próprias para essa discussão, como sugere Luli Radfahrer em seu artigo "E agora? Voltamos para a internet?".

Falta estruturar o conhecimento coletivo de uma nação adormecida. Tenho certeza que as redes sociais continuarão a ter papel fundamental nesse processo.

OBS: Sei que as pessoas que se mobilizaram pelas redes não representavam a totalidade dos manifestantes. Outros grupos encontraram diferentes meios de organização e alguns dos eventos de protesto que ocorreram pela cidade nem mesmo chegaram a ser mencionados em redes como o Facebook. Isso mostra inclusive como as redes sociais são ainda no Brasil, uma realidade só para uma parte da população. Como disse no início, a mim interessava evidenciar exclusivamente a mecânica quando há interferência das redes, por isso, restringi  minha análise.


Crédito da imagem: G1

Mais sobre o pensamento em rede

Sergio Valente acabou evidenciando que agora o paradigma é outro, entendeu?



O ano de 2013 promete. A ida de Sergio Valente para a Globo é pura consequência e constatação da revolução que vivemos no campo da Comunicação. Não é de agora. Algumas teorias vêm se consolidando ao longo dos últimos anos.

De um lado está a turma da transmedia storytelling, tentando explicar para empresas como a Globo que elas não são meras emissoras de televisão. São, na verdade, produtoras de um conteúdo que pode ser transmitido por diferentes meios e de maneira complementar, pois, assim, um meio não atropela o outro.

Do outro lado, caminhando paralelamente e em plena sintonia, está a turma do branded content, ensinando os publicitários a criarem não apenas mensagens de impacto, mas conteúdos relevantes para os consumidores. Em vez de um filme no intervalo comercial, faz-se um programa inteiro de TV.

Sergio Valente, ao deixar o mercado publicitário e seguir para a televisão, de certa maneira prova essa teoria; e mostra como tanto a televisão quanto a publicidade vivem um momento de fusão de linguagens. É um novo paradigma. Um novo modelo de construção de comunicação em que o pensamento em rede está intrínseco, pois está presente tanto no discurso da transmídia quanto do branded content.

Em minhas aulas, quando vou exemplificar como atua o pensamento em rede, costumo citar um aplicativo para dispositivos móveis que ganhou popularidade principalmente na época em que houve todo aquele problema com a ferramenta Apple Maps. Trata-se do Waze (www.waze.com), um aplicativo de navegação por GPS que permite substituir o aparelho de GPS do carro pelo seu próprio celular.

Esse app possui características que o diferem dos demais serviços de mapas e geolocalização justamente por aplicar conceitos que fazem parte do paradigma das redes. Os conceitos mais evidentes são o de colaboração, compartilhamento social e interatividade. A colaboração aparece sob a ótica do “crowdsourcing”. O Waze não possui uma equipe para atualizar constantemente seu mapa. Essa atualização é feita de forma dinâmica, colhendo informações provenientes dos próprios usuários do serviço. Por isso ele é gratuito.

Quando há tráfego muito pesado em determinada via, ela aparece em vermelho na sua tela. Essa informação foi obtida a partir da observação da velocidade média de outros usuários que circularam por aquela via. Se por acaso você se deparar com uma rua que não aparece no mapa, basta registrá-la em seu celular e, caso confirmada por outros usuários, essa atualização torna-se visível para todos os demais.


O compartilhamento social e a interatividade aparecem de diferentes maneiras no Waze. É possível participar de “comunidades” para passar a receber dicas enviadas por outros usuários (acidentes, problemas na via, etc). Além disso, ao abrir o mapa, aparecem na sua tela outros usuários em movimento pelas vias que estão no seu entorno. Para não ficar atrás da onda das redes sociais, é possível também conectar o Waze com sua conta do Facebook e ver se algum amigo seu está em trânsito naquele momento; e se a rota dele vai por acaso, cruzar com a sua em algum ponto.

Pois bem, chega de descrever a ferramenta e vamos ao que interessa: como isso se aplica à publicidade? A minha proposta é que cada vez mais, em vez de criarem anúncios publicitários, as agências deveriam criar conteúdos relevantes como esse aplicativo. Imagine se o Waze fosse parte de uma estratégia de comunicação para uma empresa de seguros ou uma marca de automóveis. Um GPS de navegação gratuito, oferecido (hipoteticamente) pela Porto Seguro ou quem sabe pela Mitsubishi. Entendeu aonde quero chegar?

Conforme crescesse a comunidade de usuários da ferramenta, ele passaria a ser um canal de comunicação muito forte, não só para construção da imagem de marca (branding), mas também para a realização de ações promocionais e lançamentos. O pensamento em rede pode ser aplicado hoje na estratégia de comunicação da sua empresa, basta o exercício de criatividade. Provavelmente é isso que Sergio Valente foi fazer lá na Globo.




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Publicado originalmente na coluna da edição impressa do jornal Meio e Mensagem, ano XXXIV, núm.: 1546, pág. 08. São Paulo: Editora Meio e Mensagem, 11/02/2013.

Uma breve crítica ao #VemSeanPenn


Já vou me adiantar e avisar que farei aqui breves críticas não ao filme nem seus atores. Minha análise se restringe à estratégia publicitária adotada nas mídias sociais. Para ser mais específico, a crítica reflexiva não se limita a este caso específico, mas às estratégias que temos adotado nas redes sociais para fazer propaganda.

O filme em si fez bastante sucesso no Festival de Gramado de 2012. Além da crítica especializada, "Colegas" deve atrair o público em geral a partir de março, quando deve estrear. A estratégia de publicidade para divulgação do filme também foi muito comentada essa semana. É isso que gostaria refletir aqui; e quero começar pelos pontos positivos.

Publicidade de filmes
O cinema é um daqueles mercados que poderiam tirar um proveito enorme das redes sociais para a divulgação do filme, mas até agora, poucos souberam fazer isso. "Colegas" é um filme que provavelmente vai provar essa minha teoria. A partir das redes sociais, é possível promover/estimular a colaboração e o compartilhamento espontâneo entre os futuros espectadores do filme utilizando como recurso a derivação da narrativa do próprio filme.

Derivando a narrativa e o roteiro
Em resumo, o filme "Colegas" fala sobre a vida e a realização do sonho de 3 personagens com síndrome de Down. Um deles quer ver o mar, outro voar e a personagem feminina quer casar.
Partindo desse mesmo mote, a campanha publicitária pretende estimular nas redes sociais a colaboração/mobilização do público para a realização de alguns sonhos:


1 - O sonho da distribuição do filme: dentro do portal de crowdsourcing Catarse, a produtora Gatacine abriu um projeto de captação de recursos para a distribuição do filme. O projeto não foi bem sucedido, já que conseguiu captar apenas R$8.310,00 e a meta era de R$100mil. Talvez o público não tenha compreendido a necessidade de apoio financeiro já que o filme já contava com alguns patrocinadores (Petrobras, Invest Image Caixa Seguros, Sabesp, Neoenergia, Prefeitura de Paulínia, Akzo Nobel, Net, KSB, Docol, Eaton, Libbs, Locaweb, CVC, Ferro + e Senac.) e inclusive contava com a participação de uma empresa de distribuição de filmes, a Europa Filmes. Nesse caso, é possível cogitar a possibilidade de que a criação do projeto de captação dentro do portal Catarse tivesse como objetivo não só a captação de recursos financeiros, mas também a divulgação do lançamento do filme simplesmente. Assim, podem não ter atingido o valor de 100mil, mas conseguiram divulgar o lançamento do filme dentro daquela comunidade.




2 - O sonho de conhecer Sean Penn:
através da produção de um vídeo viral no Youtube e da hashtag #VemSeanPenn, promoveu-se na semana que passou, uma grande mobilização entorno da história real de um dos atores principais do filme com síndrome de Down: o sonho de conhecer o ator Sean Penn. A partir de um vídeo muito bem roteirizado, que inclui até a participação de atores "Globais", os usuários das redes sociais são convidados a espalhar a hashtag #VemSeanPenn para fazer com que a o convite do ator de "Colegas" chegue até Sean Penn.
Mais uma vez, por trás de toda essa narrativa (verídica ou não), está a comunicação da estréia do filme no dia 1o de março. Essa ação sem dúvida, fez mais sucesso do que o projeto no portal Catarse. Em menos de 48 horas o vídeo já contabilizava mais de 650 mil visualizações. Após 3 dias já eram mais de 900 mil visualizações.



2 - O sonho de conquistar um Oscar: Na página do projeto Catarse há indicações de perfis criados nas redes sociais para o que pode ser uma possível continuidade da campanha. Mais uma vez, baseados não na história do filme, mas na história do ator com síndrome de Down, a equipe de "Colegas" deve iniciar - após o lançamento do filme - uma campanha pelas redes sociais para promover a ida do ator para o Festival do Oscar. O perfil no Facebook e no Twitter já foram criados.



A manipulação da celebridade e do público
Uma ressalva importante que quero fazer sobre esse caso refere-se essencialmente a como temos utilizado os conceitos de colaboração, mobilização e compartilhamento nas estratégias de publicidade em mídias sociais.

Pare e pense: como deve ser para uma celebridade como Sean Penn, receber toda essa "pressão social" oriunda das redes sociais, sabendo que por trás disso há uma campanha publicitária para lançar um filme? Claro que atores como ele devem cobrar um alto cachê para participar de ações publicitárias, mas e nesse caso, em que o protagonista é um ator com síndrome de Down? Imagine que por conta de outros compromissos, ele não possa comparecer. Como ficará sua imagem perante todos os brasileiros que se mobilizaram para fazer o convite chegar até ele? Quem assistiu o viral #VemSeanPenn sabe o quanto ele é imbuído de recursos emocionais para mobilizar as pessoas a compartilhar o filme.

Particularmente preocupa-me outra questão: no campo publicitário, há algo muito importante a ser considerado: por valores éticos, não se deve envolver o nome de terceiros (uma celebridade internacional) numa estratégia de campanha publicitária sem o seu consentimento. Será então que Sean Penn já estava ciente de toda a campanha antes mesmo do envolvimento do público que compartilhou o vídeo? Nesse caso, qual será a reação do público quando souber que foi estimulado a fazer uma mensagem chegar até uma celebridade, quando na verdade, tudo isso já estava previamente programado?

OBS: vale lembrar que nada disso são constatações, mas apenas suposições minhas.



Murilo Benício, Rede Globo e Vivo
Essa campanha pode lembrar um outro caso publicitário recente, em que as agências VML e Y&R fizeram  para a marca Vivo uma campanha publicitária em que o protagonista era o ator Murilo Benício interpretando seu personagem Tufão, da novela Avenida Brasil. Logo após a veiculação do filme, a Rede Globo solicitou a interrupção da campanha, pois ela não havia cedido direito de uso da imagem do personagem da sua novela.

Esse fato gerou bastante discussão no meio publicitário pois evidencia uma quebra de paradigma que vivemos. Quem vive sob a ótica do pensamento em rede o mundo das mídias sociais sabe que é muito comum a lógica do mash-up, do meme e da resignificação de mensagens. O reaproveitamento de conteúdos produzidos por terceiros é uma prática que vai contra a lógica tradicional do direito autoral, este por sua vez, construído sob um paradigma diferente do que está se implantando.

Porém, no caso de "Colegas", não se trata apenas de um meme ou re-aproveitamento de conteúdo. Há uma característica da qual discordo que é a manipulação e envolvimento dos usuários da rede e de uma personalidade pública, sem deixar claro e evidente seu propósito publicitário. Esse é um ponto negativo de toda uma estratégia publicitária que, como citei antes, possui também vários outros pontos positivos. A campanha #VemSeanPenn foi criada pela AgênciaClick, que já criou muitas outras campanhas de sucesso nas redes sociais. É uma das pioneiras no meio digital que respeito.

É sim muito interessante como nesse caso, foi possível unir o lançamento do filme com a realização do sonho do protagonista. Usuários comuns e personalidades se emocionaram e se mobilizaram na campanha #VemSeanPenn.



Ainda assim, vale sempre a reflexão e o cuidado de - como - fazer uso da imagem de terceiros. Considero importante a discussão desses temas pois é assim que aprendemos e construímos os fundamentos dessa nova linguagem das redes, que está ainda apenas engatinhando.