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Crise de Imagem: a resposta da Globo para o "Cala Boca Galvão"


O fato todos conhecem: desde o início da Copa do Mundo de 2010, virou hit no Twitter a expressão "CALA BOCA GALVAO", bem como o tag #calabocagalvao.

Vale ressaltar que sempre foi costume do brasileiro, durante a transmissão dos jogos de futebol pela Rede Globo, mesmo antes do Twitter, reclamar dos comentários do Galvão Bueno. Como digo sempre, os meios digitais não são nada mais do que espelhos potencializadores do que já acontece em nosso cotidiano.

No Twitter a reclamação virou brincadeira. Foi chamada de "movimento". O objetivo: fazer a expressão "CALA BOCA GALVAO" chegar aos Trendig Topics do Twitter.

A Repercussão:
O Twitter foi de fato uma ferramenta potencializadora de um interesse coletivo. O objetivo foi alcançado. A expressão chegou aos Trending Topics e com isso, ganhou repercussão mundial.

Chegaram a exibir uma faixa dizendo "CALA BOCA GALVAO" durante a primeira partida do Brasil na Copa do Mundo.

Para complementar e estimular a propagação, o blog Não Salvo, em conjunto com Nandopax e NerdsKamikaze, criaram um vídeo publicado no YouTube, com o objetivo de confundir a audiência internacional (que no Twitter questionavam o que significava a expressão "CALA BOCA GALVAO").

No vídeo publicado no YouTube, uma narração em inglês fala de um movimento para salvar uma espécie de pássaro chamado "Galvão".

Pois bem, em cerca de uma semana, toda essa brincadeira virou pauta para jornais como o El Pais (Espanha) e o NY Times (EUA).


A Resposta da emissora:
Até ontem, a rede Globo manteve-se calada sobre o assunto. Assim como fez em relação às faixas que sempre existiram nos campos de futebol brasileiros. A única ação até então, era evitar que as faixas fossem captadas pelas câmeras da emissora.

Mas o surgimento das redes sociais e o paradigma que ela traz consigo, obrigou a Rede Globo a começar a mudar seu relacionamento com a audiência.

Desde o ano passado a emissora vem experimentando novas estratégias de comunicação e relacionamento com o público. Particularmente, acredito inclusive que a Globo é a emissora no Brasil, melhor prepararada para lidar com esse novo paradigma implantado pelas redes sociais (veja aqui um outro post sobre o assunto).

Sob o ponto de vista institucional, o "CALA BOCA GALVAO" é um bom exemplo de situação de crise de imagem que surge com a era das redes sociais.

Em discussões sobre "gerenciamento de crise de imagem" e RP 2.0, é unânime a afirmação de que não se deve optar em primeira instância, por nenhuuma resposta institucional que seja agressiva, impositiva ou que tente cercear a opinião pública. Ao contrário, a melhor resolução é aquela que consegue minimizar a repercussão negativa e se possível, converter em algo positivo.

Foi o que fez a Rede Globo.

Depois de uma semana inteira sem nenhuma manifestação, o próprio Galvão Bueno começou a comentar o caso publicamente, dizendo que considerava uma espécie de homenagem.

Especialmente ontem, após a transmissão da partida Brasil x Coréia do Norte (em que aparece a faixa no estádio), o locutor conversa com o apresentador Tiago Leifert e comenta o caso. Esse material, além de transmitido pela emissora, é também transformado em uma matéria para o portal na internet da emissora.

Aqui começa a sacada da Globo, pois ao invés de calar-se, ela começa a aproveitar o assunto como pauta e tenta converter em audiência.

Logo depois da publicação online da matéria, em seus respectivos perfis no Twitter, Galvão Bueno (fake), Tiago Leifert e Casseta & Planeta comentam o caso, ajudando a divulgar o link da matéria.



No final da matéria fica anunciado que a entrevista completa iria ao ar no programa Central da Copa na noite daquela quarta.

Essa nota foi suficiente para gerar expectativa entre os usuários do Twitter que claro, naquela noite, durante toda a transmissão do programa Central da Copa, ficaram também ligados no Twitter, comentando entre si.

Em resumo, o interessante deste caso não é a estratégia para eliminar a repercussão negativa, pois grande parte do público reclamou do locutor considerar tudo isso apenas uma "brincadeira". E de fato, a repercussão negativa continua (porém foi minimizada).

O destaque fica para a capacidade da emissora em conquistar parte desse público e converter em audiência para o seu portal na internet e para o programa Central da Copa. Afinal, a luta maior atualmente das emissoras de TV é atrair o público que migrou da televisão para o ambiente digital.

Observações finais:
- No texto acima não pretendo indicar que todos os fatos são parte de uma única estratégia planejada pela emissora. Não faço ideia em qual momento houve uma ação institucional e qual foi uma atitude particular dos profissionais envolvidos. Fato é que o conjunto dos eventos surtiram um efeito positivo para a Rede Globo.

- Após a publicação desse post alguns amigos lembraram que o perfil @galvaobueno_ não é oficial. Ainda assim, foi um dos perfis que participaram da propagação da matéria da Globo sobre o caso e portanto, colaboraram positivamente para a promoção da emissora. Obrigado àqueles que ajudaram a complementar esse post!

- Hoje o programa Video Show também fez uma matéria dobre o "CALA BOCA GALVAO", prova de que a emissora resolveu apropriar-se do assunto como pauta para sua programação. Uma forma de atrair o público do Twitter para a televisão.

- Um leitor do blog deixou na área de comentários um link para outra matéria publicada no portal da Globo sobre o programa Central da Copa e a entrevista com Galvão Bueno. Nota-se que o tema gerou bastante conteúdo.

- Concordo que na entrevista durante o Central da Copa, o próprio Galvão Bueno não aparenta estar completamente à vontade.  O que indicaria trata-se de uma decisão institucional essa tentativa de apropriação  da repercussão. Mas vale mais a aposta de que no fundo, foi um encontro de iniciativas institucionais e individuais de pessoas que conhecem bem o funcionamento das redes, como o Tiago Leifert.

- Também concordo com aqueles que disseram não gostar de como a Globo ironizou  a situação. "Levar na brincadeira" não é, de fato, a melhor resposta. O público quer ser levado a sério, e não o contrário. Por isso afirmo que essa resposta não foi necessariamente a melhor, minha ênfase está mais sobre a forma como ela aproveitou para gerar audiência para sua programação.