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Um app que te conecta com pessoas que cruzaram sua vida no passado

Recebi o material de uma nova rede social que está prestes a ser lançada. A promessa é para início de 2017.
Sua interface é baseada em imagens, assim como o Instagram, mas seu mote é o tempo passado e futuro. Seu nome é TimeHi.



Há muito pouco ainda sobre essa nova plataforma. Apenas um perfil no Facebook, outro no Instagram e uma página web de cadastro para ser um dos primeiros a conhecer o app no lançamento.

Me pergunto se há espaço para mais uma rede social. Não é fácil estimular o gatilho que gera o movimento social de migração para outra plataforma. Afinal, o que motivaria a grande massa a trocar o Facebook, o Instagram ou o Whatsapp por outra rede? É preciso criar um desejo que se espalhe e contamine rapidamente todos os usuários.

Eu prefiro acreditar que o espaço para novas redes não está na briga direta, mas na busca por um nicho e uma experiência própria. Assim vejo o esforço do SnapChat, por exemplo. Desenvolveu uma interface própria que, por conta do sucesso, recentemente foi copiada pelo Instagram. Mas antes disso, já havia se firmado entre os jovens, principalmente meninas, que gostam de consumir tudo sobre o tema “lifestyle” e usam o SnapChat para acompanhar o cotidiano das celebridades e influenciadores digitais. Hoje o SnapChat já alcançou mais usuários ativos do que o Twitter.

Neste cenário, minha aposta é que o sucesso de um aplicativo novo como o TimeHi está na sua capacidade de conseguir atingir rapidamente um nicho que se interesse pela proposta da interface e passe a utilizá-la em seu cotidiano. Um nicho, um segmento da sociedade. Não a grande massa como acontece com o Facebook.

É preciso que esteja claro que experiência a plataforma vai proporcionar. No Facebook é o compartilhamento em tempo real de algum fato relevante. Já no Instagram é a exposição das imagens do cotidiano. O SnapChat focou na exposição de videos curtos, relacionados às últimas 24 horas, algo ainda mais intimo. Já o TimeHi, procura não olhar para o presente, mas principalmente para o compartilhamento de imagens do passado e mensagens para o futuro.

É possível publicar imagens e indicar uma data no passado, seja um dia ou 15 anos atrás. Ela será posicionada por ordem cronológica na sua linha do tempo. Além disso, há a expectativa de que, mais para frente, o app conecte as pessoas a partir desses eventos acontecidos no passado. Ou seja, o app vai permitir estabelecer uma conexão com pessoas que cruzaram seu caminho em algum momento no passado. Isso pode interessar muitos, seja para o networking profissional quanto para relacionamentos sociais e amorosos.

As funcionalidades em relação ao tempo futuro também podem agradar: é possível programar que uma publicação seja enviada para alguém (ou para si mesmo) no futuro. Que tal daqui a 10 anos receber um recado do seu “eu do passado”? Ou surpreender alguém próximo com uma mensagem sua?

Os responsáveis por essa plataforma são brasileiros e por enquanto estão criando apenas uma audiência de curiosos, até o app efetivamente sair do forno. Quem quiser ser um dos primeiros a conhecer, é só cadastrar seu e-mail nesse link.

Promover conversas com o consumidor também gera lucro #CannesLions


Tenho uma premissa que fala sobre a necessidade atual das Marcas participarem do cotidiano das pessoas. Uma mensagem publicitária desconectada do dia a dia do seu consumidor não surte mais efeito. Transparência, engajamento/responsabilidade social e proximidade com a realidade são itens importantes, pois só uma marca forte é capaz de se sustentar em períodos de crise ou enfrentar uma forte concorrência.

Dentro desta premissa de envolvimento e empatia a sociedade, cabe a estratégia de utilizar seus recursos de comunicação para estimular na audiência a discussão sobre algum assunto emergente em que a própria sociedade vê conflitos.

Obviamente, essa estratégia gera muita repercussão espontânea e você sabe que nos dias de hoje, isso é essencial. Porém, ela também coloca o tema da discussão em primeiro plano da campanha, enquanto a marca aparece em segundo plano, apenas como incentivadora. Isso pode soar estranho ou mesmo aparentar um erro estratégico, mas não é isso que alguns cases inscritos no Festival de Cannes Lions deste ano mostram.

Na verdade, alguns cases chegam a provar que houve um ganho direto em vendas, algo capaz de quebrar paradigmas de marqueteiros conservadores. Abaixo dois exemplos:


#1 Adidas - Superstar

Para o re-lançamento do modelo Superstar de 1969, a marca criou uma campanha em que seus ícones David Beckham, Pharrell Williams, Rita Ora and Damian Lillard propõe uma questão para a sociedade: o que é ser uma celebridade e o que move uma celebridade? Afinal, na era das redes sociais, todos estão em busca de views e likes; e essa provocação tem ressonância com esse comportamento.



Na segunda fase da campanha, a marca se associa ainda mais com Pharrell Williams, e responde o debate anterior dizendo que verdadeiras celebridades criam para si e não para agradar o outro. Também acontece o lançamento da linha Supercolor que traz 50 tons diferentes do tênis.





Como resultado, a marca cresceu 292% em vendas globais durante o lançamento e após o primeiro trimestre, houve um crescimento de 29% das vendas locais.



#2 Under Armour - “I will what I want”

A marca de produtos esportivos Under Armour resolveu colocar em questão os rótulos e esteriótipos que fazem parte da nossa cultura bem como oferecer inspiração para as mulheres com o tema “Eu terei o que eu quiser”.

Gisele Bündchen foi convidada para ser a garota propaganda, mesmo não tendo o perfil atlético esperado pela audiência. Um hotsite registrava em tempo real toda a polêmica entorno da escolha da modelo e essa ação garantiu o Gran Prix em Cyber de 2015.

Agora a marca retorna na categoria Creative Effectiveness, para destacar o desdobrando das conversações e midia espontânea geradas a partir da bandeira que Gisele levantou, inspirando mulheres no mundo inteiro a investirem em seus sonhos.

A campanha garantiu um crescimento de 42% de visitantes no site da marca e 28% de crescimento em vendas de produtos femininos.



Investir em espaços de diálogo com a sociedade pode não só trazer resultados para o valor da marca, mas também gerar um considerável crescimento em vendas.


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Publicado originalmente no "Update or Die", em 21/06/2016.





Ação com influenciadores das redes para o lançamento do Zenfone 2


Para o lançamento do Zenfone 2 da Asus, foi criada a campanha "Fenômeno Z" que conta com - entre outras peças de comunicação, um hotsite: fenomenoz.com.br.

Além da ação de lançamento propriamente dita, uma parte da campanha envolveu também uma ação teaser nas redes sociais: hoje (19/08/15), um dia antes do lançamento oficial, as redes sociais, principalmente o Instagram, amanheceram repletas de publicações com formato muito parecido: todas anunciando o novo produto.

Um número razoável de personalidades e influenciadores das redes foram convidados a publicar posts todos muito semelhantes: uma foto selfie com a caixa do produto na mão, mostrando que ganharam de presente o produto para avaliação. No texto, todos também ressaltavam os mesmos diferenciais: a câmera de 13MP e se tratar do único smartphone com 4Gb de RAM. Todos os posts seguiam com as hashtags #zenfone2brasil e #fenomenoz.

Particularmente não gosto da padronização criada para o conteúdo dos posts. Acredito que tirar o caráter de "propaganda" e deixar cada um escolher como envolver o produto em seus posts soaria mais natural e menos disruptivo.

De qualquer forma, entendo que a ação foi capaz de gerar uma boa repercussão por convidar todos a publicarem no mesmo dia e período, o que ajudou a garantir o impacto de mídia e a frequência desse impacto.




O olhar mediado pelos dispositivos móveis


Cada vez que vou a um show ou vou conferir uma exposição fico impressionado ao notar como as redes sociais e os dispositivos móveis estão interferindo rapidamente em nossa cultura e na forma como vivemos essas experiências.  

O olhar mediado pelas telas e a compulsão pelo registro imagético não é novidade, mas o fato é que a cada dia surge uma nova página dessa história, trazendo novos aspectos. A supervalorização da imagem e a disposição pela exposição nas redes sociais tornaram a experiência de visitar uma exposição, algo completamente diferente do que já foi um dia. 

Não consigo mais visitar uma exposição e impactar-me apenas com a obra em si. Meu olhar se abre e fico atento não só à obra, mas também à perfomance do público entorno dela. Todos com suas extensões tecnológicas em punho, registrando e publicando insaciavelmente o que lhe aparece pela frente, sem dar atenção à pausa reflexiva que um leitor contemplativo costumava realizar quando em frente à uma obra artística.  

Na minha visão otimista, esse é um comportamento efêmero, típico desta nova fase de deslumbramento com as novidades oriundas das redes sociais. Logo passa. Porém reconheço que ainda assim, nada mais será como antes. 






 





Panóptico Social: vigiados pelos próprios amigos


O avanço tecnológico ampliou as possibilidades de controle e vigilância. Máquinas de vigilância são implantadas em ambientes públicos e privados. Em cada esquina, em cada portaria ou em cada quarto de bebê.

Esse cenário já foi apontado faz tempo. O filósofo francês Michel Foucault utilizou a arquitetura de uma prisão para explicar o princípio do panóptico, em que é possível instalar nas pessoas o sentimento de constante vigilância sem necessariamente ver quem o vigia. O modelo do panóptico não estaria presente só na prisão, mas também em hospitais, escolas, fábricas etc. Ele chamou esse modelo de “sociedade disciplinar”, pois fora desenhada para moldar a sociedade conforme interesses do poder maior.

Mais recentemente, Zygmunt Bauman lança a ideia de pós-panoptico e de vigilância líquida para explicar a sociedade contemporânea. No pós-panóptico não há mais qualquer necessidade de um olhar centralizador para nos sentirmos vigiados. Não podemos mais ver claramente os pontos de vigilância. Somos controlados e vigiados a cada movimento. A disciplina se dá a partir da disposição do próprio ser. Deixar-se vigiar é uma questão de segurança própria.

Bauman é responsável pela ideia de modernidade líquida. Ele vai dizer que valores importantes para a sociedade como amor e privacidade não possuem mais uma definição tão sólida como em outros tempos. Claro, os valores são definidos e redefinidos ao longo do tempo, mas na sociedade contemporânea, ele entende que os conceitos são agora mais voláteis, maleáveis. Chegam a ser banalizados. O amor não é mais sólido. É líquido. Eu diria que hoje, há espaço para “diversas formas” de amor. Ama-se qualquer um. Ama-se qualquer coisa. Ama-se muito tudo isso.

Nesse contexto nasce também a ideia de vigilância líquida em que questões como anonimato e exposição são constantemente discutidas justamente por serem noções instáveis, flexíveis. Ele vê a big data como uma fonte inesgotável para a vigilância líquida, pois todo e qualquer rastro de uma pessoa é passível de ser identificado e capturado a qualquer momento.

Um bom exemplo foi o caso Snowden. Em 2013, Edward Snowden foi personagem importante do cenário político mundial por tornar público um projeto americano de vigilância digital. Snowden participava de um projeto que coletava informações privadas de emails e diversos outros rastros digitais de importantes políticos internacionais.

Note que há por trás um Estado exercendo o poder de vigilância não somente sobre uma nação, mas sobre todo o espectro global. Apesar dos conceitos propostos serem bastante amplos, é possível ver que no discurso de Foucault e Bauman há sempre um estado ou uma instituição exercendo o controle e a vigilância.


Panóptico Social

Interessa-me nesse momento, levantar outra vertente sobre o controle da sociedade em que faço uso da evolução do pensamento explicitada nesse texto - que nasceu em Foucault e se desenrola até Bauman - para lançar a ideia de panóptico social.

Não pretendo desmerecer a extrema importância de atentarmos para os mecanismos de vigilância existentes na era digital que propiciam o controle onipresente do estado sobre o povo, mas deixo essa responsabilidade para Bauman e seus seguidores.

O termo panóptico social vai em outra direção; quer realçar um cenário em que a sociedade exerce um papel de autocontrole e vigilância, desenhado a partir de um movimento concomitante da evolução da tecnologia digital e o advento das plataformas de relacionamento.

De um lado, surgem os dispositivos que permitem filmar, identificar, registrar e rastrear dados sobre si próprios. Do outro, surgem plataformas que permitem a essas pessoas, compartilhar essas informações com seus pares. Note que há aqui, portanto, um diálogo importante entre a disposição pela exposição da sociedade e o desenvolvimento de plataformas de redes sociais.

Assim como na proposta de pós-panóptico de Bauman, já não existe mais a referência arquitetônica, pois tanto não há espaço físico, como não há um centro de vigilância. São apenas publicações em redes sociais. Ainda assim, há a constante impressão de ser vigiado.

Porém, quando utilizo o termo panóptico social quero ressaltar o poder estabelecido pela própria sociedade de controle sobre si, sem uma referência a um poder político ou religioso.

No panóptico social, é a própria sociedade que começa a definir seus limites. Isso é visível nos comentários que acompanham todas as publicações feitas diariamente pelos usuários nas redes sociais.

Ela colabora com a construção - em tempo real - de uma noção de moral e ética que é latente o maleável, por isso, vai de encontro com a proposta da sociedade líquida de Bauman.

As redes sociais são agentes desse apoderamento da sociedade. É a partir delas que um usuário comum exerce sua tarefa de vigilância sobre os atos dos seus “amigos”.  É sobre esse leito que estamos redefinindo a noção de privacidade, por exemplo.

Farei uso de um exemplo. Considere o fenômeno recente conhecido como “selfie”. O ato de registrar uma imagem fotográfica de si próprio e publicá-la na internet é um movimento natural de uma sociedade narcísica. Apesar da cultura de cada povo ter uma aceitação diferente para esse ato, pode-se dizer que se trata de um fenômeno global.

Além da publicação, há ainda dentro desse fenômeno o interesse pela propagação dessa imagem. Vê-se, portanto, que a disposição pela exposição é um conceito bastante importante e constantemente discutido.

O selfie mais famoso e mais compartilhado até agora aconteceu durante a cerimônia de premiação do Oscar 2014, nos EUA.

A apresentadora e comediante americana Ellen DeGeneres chamou alguns atores que estavam na plateia para fazer uma foto ao estilo “selfie”. Na sequencia, convocou a sua audiência para propagar a imagem pelo Twitter. Em menos de 45 minutos a imagem foi compartilhada mais de 1 milhão de vezes. No dia seguinte, já eram mais de 2 milhões de compartilhamentos.

Porém, engana-se aquele que vê esses números e pensa que a noção de exposição e o fenômeno do selfie é algo completamente aceito e estabelecido. No contexto do panóptico social, há sempre usuários prontos para criticar e a partir disso, reacender a discussão coletiva sobre as bases morais e éticas desse fenômeno.





Ambientes Digitais X Espaços Físico
O que acontece na rede se desenrola no cotidiano da sociedade, também fora da rede. Não podemos esquecer que o mundo digital que construímos não está descolado da realidade. Ele é apenas um espelho que amplifica e torna visível aspectos - algumas vezes pouco evidentes -  de nós mesmos.

Um exemplo para clarificar é o caso da professora carioca que publicou em seu perfil no Facebook uma foto criticando a roupa de outra pessoa que estava no mesmo ambiente que ela.

Mais uma vez, um exemplo típico do panóptico social em ação. O curioso deste caso é que a imagem propagou de tal maneira que chegou até o próprio indivíduo que aparece na foto, que por sua vez, ameaçou abrir um processo jurídico contra a autora da imagem. Assim, reacende a discussão sobre privacidade e como disse, reafirma minha tese de uma sociedade que está em constante reformulação de seus limites.

Claro que a renegociação das relações e valores de uma sociedade é um movimento constante e natural, porém na sociedade contemporânea, o surgimento das plataformas digitais não só acelerou esse processo, como tornou visível.


Anonimato
Para finalizar, é importante observar que o panóptico social está diretamente associado a um contexto em que a privacidade e a exposição são conceitos amplamente discutidos sendo muitas vezes, incompreendidos e banalizados.

Em tempos de panóptico social, o anonimato ganha status de luxo. Torna-se desejo de consumo. É bem provável que os novos produtos de consumo venham amarrados à ideia de anonimato. Logo veremos ganhar popularidade, plataformas sociais que lidam com a relação entre exposição e anonimato. Uma "exposição anônima".

Há algumas experiências nesse sentido como as plataformas Secret, WUT e Whisper. Eu ficaria de olho nessa tendência.

Manter-se anônimo dentro ou fora da rede sempre foi um desejo daqueles que lidavam profissionalmente com a exposição excessiva. Agora que vivemos num mundo em que todos já alcançaram seus 15 minutos infindáveis de fama, o anonimato torna-se um recurso escasso e objeto de desejo.



Sugestões de leitura complementar:

  • CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
  • CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: A era da Informação. 18ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2005.
  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Ed. Vozes, 2007. 
  • ZYGMUNT, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
  • ZYGMUNT, Zygmunt & LYON, David. Vigilância líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2014. 


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Publicado originalmente no "Update or Die", em 02/08/2014.

Um novo modelo de negócios para a indústria da música

Spotify é lançado oficialmente no Brasil

Gustavo Diament (Spotify LATAM), durante evento de lançamento. 


O lançamento oficial do Spotify no Brasil vai além da oferta de uma nova plataforma de entretenimento para o brasileiro. É uma oportunidade para estimular e popularizar um novo modelo de negócios e até mesmo de consumo da música.

No princípio, o meio digital surgiu como uma catástrofe para a indústria musical. Bandas, gravadoras e distribuidoras viram-se num beco sem saída frente à cultura do compartilhamento. O meio digital mostrou que a mídia física (cd, vinil, k7 etc) estava com os dias contados e que a distribuição em rede era inevitável. Nesse período a pirataria reinou.

Apesar de não ser a única a trabalhar num novo modelo, em 2003 quem ganhou destaque foi a Apple com o lançamento da loja online “iTunes Store”. O consumidor começou a experimentar a possibilidade de comprar o arquivo digital do álbum de uma banda ou mesmo só de uma das músicas do álbum ao custo de U$0,99 por música.

Na época, a popularização da compra online de músicas por U$0,99 deixou evidente um caminho possível para a indústria musical. Hoje vivemos uma nova fase dessa evolução que vem de encontro com tendências como a disposição de dados infinitos na “nuvem” do meio digital e a ideia de não consumir mais a partir do conceito de “possuir” mas de “usufruir”.

Ao invés de comprar e guardar para si música por música, o Spotify faz outra oferta às pessoas: ele oferece uma plataforma em que o usuário pode ouvir toda e qualquer música que desejar, quantas vezes quiser, pagando por isso uma taxa mensal. Ou se preferir, pode optar por um pacote gratuito, em que a remuneração é feita a partir de espaços publicitários.

É o Netflix do mundo da música. E provavelmente, vai provocar o mesmo estardalhaço que o Netflix tem causado no mercado audiovisual.

Marcelo Jeneci, Fernanda Takai e Gaby Amarantos com Gustavo Diament.

No campo da música, o Spotify não está sozinho nem foi o primeiro a chegar no Brasil. As plataformas Rdio, Deezer, Napster, entre outras já veem ganhando muitos usuários brasileiros e ajudando a construir essa cultura de consumo a partir do pagamento de uma taxa mensal.

O Spotify é oferecido em dois formatos: um pacote gratuito que permite ouvir online todas as músicas (mas não oferece a possibilidade de ouvir off-line) e um pacote premium que não possui nenhuma limitação e desabilita os anúncios publicitários entre uma música e outra. No Brasil esse pacote premium vai custar R$14,90/mês (por enquanto é vendido apenas através de pagamento internacional no valor de U$5,99/mês).

Minha curiosidade está na possibilidade de plataformas como o Spotify mudarem o hábito de consumo de música da sociedade.

O Spotify estimula um consumo mais personalizado, curado e social. Você pode ouvir uma seleção de músicas criada por você ou criada colaborativamente a partir das sugestões de amigos seus.  Se preferir, você pode ouvir seleções criadas por outras pessoas ou mesmo personalidades/ícones de diferentes áreas.



Você pode usar o Spotify no seu computador; em casa ou no trabalho, ou pode usar o aplicativo para celular e conectá-lo com o equipamento de som de sala de estar ou do carro. Assim, a plataforma está presente em diferentes momentos do seu dia.

Em particular, durante minha experiência de uso, fiquei bastante impressionado com a eficiência da transmissão online de músicas usando a internet do celular. Tenho utilizado diariamente o Spotify enquanto estou no carro e o impacto no consumo do pacote de dados do celular foi menor do que eu imaginava.

Por essas e outras, o Spotify é hoje a segunda maior fonte de receita da indústria da música no mundo. Em menos de 6 anos de vida, já possui mais de 40 milhões de usuários ativos no mundo. Destes, 10 milhões são assinantes da conta premium. Já são mais de 30 milhões de músicas disponíveis e 1,5 bilhão de playlists criadas dentro da plataforma. A cada dia, 20 mil novas músicas são adicionadas. Para quem é do mercado da música, parece-me um modelo de negócios que deve ser acompanhado de perto.





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Publicado originalmente no Update or Die, em 28/06/2014.

Privacidade na era do Big Data

O que você faz entre quatro paredes não interessa a mais ninguém além de você,
por isso não deveria ser registrado no celular.

A internet e as redes sociais propuseram uma nova dinâmica para o compartilhamento de informações em nossa sociedade. Esse dinamismo parece estimular uma “exposição voluntária” do indivíduo. É muito comum ver pessoas tornando públicas informações que décadas anteriores eram consideradas “privadas”.

Na era do big data, diversas informações sobre um mesmo indivíduo são registradas na internet. Há diferentes desdobramentos para um fato tão importante como esse. O mais óbvio é a possibilidade de rastreio e vigilância de uma determinada pessoa. O ex-funcionário da CIA, Edward Snowden, tornou público em 2013, um programa de vigilância do governo americano. Sob certo aspecto, é válido considerar que antes mesmo do governo, a própria sociedade passa o dia vigiando e controlando os passos digitais de seus amigos pelas redes sociais.

A disposição pela exposição é o artifício por trás de qualquer rede social. Esse artifício também está presente em muitas das campanhas de comunicação e ações inovadoras que apresentam características colaborativas e interativas. Por trás há sempre algum aspecto que envolve a exposição do consumidor. Hoje o consumidor quer participar da propaganda, algo pouco comum antigamente.

Esse é o cenário atual, é onde nos encontramos. Não pense que você está isento, escondendo-se atrás das configurações de privacidade do Facebook. Se você gosta de brincar de Instagram no seu iPhone, então você faz parte dessa sociedade da (auto)exposição. Manter o perfil do Instagram fechado apenas restringe sua audiência, nada mais do que isso. Você não tem controle completo sobre sua imagem na rede. Na era do big data, há mais rastros digitais sobre nossas vidas do que imaginamos.

Numa rápida consulta à web, todos saberão em qual classificação um determinado jovem estudante entrou na universidade. Nos anos seguintes, se ele ganhar algum concurso, isso também ficará registrado na internet. Quando casar, com certeza o fotógrafo da cerimônia aproveitará algumas fotos para o seu portfolio online. O videomaker publicará no Youtube. Se um dia ele participar de um processo judicial, isso será registrado na internet. Conclusão: você estará na web, seja por vontade própria, ou não.

Assim, não é a configuração do seu perfil que vai salvar sua reputação, mas a consciência crítica de tudo que é publicado. Vou mais longe, a consciência dos seus atos públicos. O que você faz entre quatro paredes não interessa a mais ninguém além de você, por isso não deveria nem ser registrado no celular. Já o que acontece além dessas paredes pode cair na rede com mais facilidade, mesmo sem a sua intenção. Esteja ciente disso.


Crédito da imagem: John Morgan
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Publicado originalmente no blog Just Cool em XX/05/2014. 


Os uruguaios usam a rede para denunciar crimes em seus bairros


Um dos assuntos do jornal do Uruguai deste domingo (04/05/14) é o lançamento do aplicativo CityCop.

Trata-se de mais um (existem outros) aplicativo para denúncia de casos de roubo e violência. Segundo o jornal, o Uruguai é um dos países com maior índice de criminalidade da América Latina. Com esse aplicativo,  qualquer cidadão pode denunciar flagrantes de roubo, violência ou venda de drogas. Também é possível indicar pessoas suspeitas na região. O mapa é marcado a cada nova denúncia e o usuário pode optar por receber notificações a cada nova denúncia numa região determinada.

Aqui no Brasil há aplicações semelhantes como Agentto e OWL, mas ainda não vi nenhuma ganhar popularidade. Há também o site ondefuiroubado.com.br, que já foi citado algumas vezes na imprensa. Ele é bastante semelhante ao CityCop, mas não possui app para smartphone ainda.

Esse CityCop é um daqueles apps de colaboração em rede que nos coloca frente à problemáticas sociais que merecem muita reflexão.  Ao mesmo tempo em que - a partir da colaboração dos próprios cidadãos - oferecem o benefício de tornar visível a criminalidade da região, podem reafirmar a incompetência dos órgãos oficiais de controle e estimular o surgimento de justiceiros independentes que utilizarão o CityCop como ferramenta para fazer justiça com as próprias mãos. Não digo que isso seja um fato, mas apenas uma possibilidade. Depende muito de nossa consciência crítica e da formação moral e ética de cada um.

Na "era da exposição" e do "panóptico social", o meio digital surge como uma plataforma de mobilização social independente de governos que permite à sociedade aplicações inimagináveis. Difícil prever até onde podemos chegar.


OBS: post elaborado com a colaboração de Diego Oliveira.

Dicas que aprendi no YouTube Space LA para montar um canal de sucesso


Pode soar estranho ou mesmo irônico ver um espaço ao lado de Hollywood em que momento algum se dá valor aos tradicionais meios de massa como o cinema ou a televisão. Este é o YouTube Space, instalado em Los Angeles (EUA).

De fato não se trata de uma ironia e sim, uma visão estratégica. Bem ao lado do maior centro de produção cinematográfico do ocidente, está instalado o YouTube Space LA, um espaço com estúdios e salas de edição à disposição dos jovens produtores que estão conquistando a cada dia uma audiência na internet equivalente à audiência de programas de televisão.

Estes jovens não estão produzindo apenas os tais vídeos “virais” que tanto já ouvimos falar. Eles planejam estrategicamente todo o desenvolvimento de um canal no YouTube. Programam a frequência das publicações de novos vídeos e desenvolvem táticas para manter sua plateia engajada e assim, amplificam a repercussão dos vídeos ao mesmo tempo que fidelizam seus espectadores.


É o caso da web série “Video Game High School”, produzida de forma independente por jovens americanos. O roteiro da web série VGHS é de responsabilidade de Matthew Arnold, Will Campos e Brian Firenzi. A direção fica por conta de Matthew Arnold, Brandon Laatsch e Freddie Wong. Foi lançada em 2012 e devido a boa aceitação da 1ª temporada, no ano seguinte o grupo resolveu recorrer a um portal de crowdfunding para obter ajuda financeira dos próprios usuários da internet para produzir a temporada seguinte. Eles arrecadaram cerca de 800 mil dólares. A 2ª temporada obteve mais de 2,5 milhões de views em cada episódio. Agora em 2014 o grupo está produzindo a 3ª temporada com recursos obtidos mais uma vez a partir da colaboração dos próprios espectadores da web série. Desta vez foram cerca de 900 mil dólares arrecadados. Também fecharam um contrato para exibição do programa no Netflix.

Como pode-se ver nesse exemplo, canais de YouTube são hoje um modelo de negócios para quem quer trabalhar no mercado audiovisual e claro, para uma empresa como o Google, é estrategicamente muito importante ter sua plataforma de vídeos em meio a essa nova era do audiovisual. O YouTube Space quer portanto, estimular e fomentar estes jovens produtores de vídeos independentes.


Nestes espaços são realizados também alguns workshops com profissionais do YouTube em que os participantes passam por um grande aprofundamento sobre como produzir conteúdo de forma estratégica e todas as questões legais envolvidas. Também aprendem como desenvolver um canal de sucesso e como desenvolver a identidade da marca de um canal. Outro tema abordado são as estratégias de remuneração a partir da inserção de propaganda no canal, bem como as ferramentas de análise de resultados.

Vê-se que o Google está formando uma legião (em escala global) de profissionais especialistas na criação de conteúdos para o YouTube. Não é por acaso. Ele precisa garantir a qualidade do que é publicado dentro de sua plataforma e depende de ajuda destes usuários-parceiros para ampliar sua audiência.

Hoje o YouTube está presente em 61 países e é acessado por cerca de 1 bilhão de usuários todo mês. Os espectadores de vídeos consomem no total, 6 bilhões de horas de transmissão de vídeo por mês. Para dar conta de tanto consumo audiovisual; a cada minuto cerca de 100 horas de vídeos são transferidos para a plataforma do YouTube. Cerca de 1 milhão de canais são remunerados através da inserção de publicidade nos canais.


Devido ao sucesso do programa YouTube Space, a empresa iniciou recentemente um projeto envolvendo exclusivamente educadores de universidades. Em Los Angeles a primeira edição desse programa exclusivo para educadores aconteceu na última semana de março de 2014 onde haviam educadores de cerca de 15 universidades americanas selecionadas pelo Google. A FAAP – Fundação Armando Alvares Penteado – localizada em São Paulo, foi a única instituição de ensino fora dos Estados Unidos convidada a participar desta edição do programa YouTube Educator LAB. Como coordenador do Núcleo de Inovação em Mídia Digital da FAAP, eu estive lá e deixo aqui um pouco do que registrei.


Diversos profissionais do Youtube se revezaram ao longo do workshop para abordar todos os aspectos da plataforma. Foram apresentados alguns importantes aprendizados colhidos a partir da experiência prática dos canais de sucesso no YouTube. Entre estes aprendizados, há recomendações bastante simples que podem ajudar quem pretende empreender um canal no Youtube. Confira abaixo:

- Lembre-se sempre que o número de visualização é menos importante do que o tempo médio de visualização do vídeo. Conhecido como “watchtime”, essa medida é hoje o principal fator para determinar a ordem de destaque que cada vídeo terá dentro da plataforma. Afinal, o número de acessos ou clicks de um vídeo não é bom indicador de visualização. Muitos podem acessar os primeiros segundos do vídeo e logo abandonar. Acompanhar nos relatórios estatísticos o tempo médio de visualização é uma maneira mais eficaz de avaliar a aderência de sua audiência e relevância dos seus vídeos.

- A interação com os espectadores do canal no YouTube é mais importante do que muitos imaginam. É vital para manutenção e ampliação da audiência dos vídeos. Um canal que faz parte de plataforma online deve aproveitar ao máximo aquilo que é intrínseco ao meio digital: a interatividade. Pode-se produzir um vídeo que faça referência aos comentários que os usuários deixaram em relação aos vídeos anteriores ou até mesmo, fazer referência direta a um espectador em especial. Outra fórmula para gerar engajamento é convidar os assinantes do canal a sugerirem temas ou colaborarem com a produção dos roteiros dos vídeos. Por fim, a interatividade pode acontecer também durante o decorrer dos vídeos através da aplicação de textos e links sobre o vídeo.

- O Google+ é uma rede social que pode ajudar a amplificar a disseminação de um canal do YouTube através da integração do recurso de publicação dos comentários dos usuários, tanto no canal quanto no post do G+. Quem optar pela integração, verá todos os comentários deixados nos posts do G+ também aparecendo na página do respectivo vídeo na plataforma do YouTube.

- Outra estratégia útil para o responsável pelo canal é observar a lista de “Top Fans” do relatório de estatísticas e a partir dela, criar um círculo no Google+ para passar a enviar mensagens exclusivas para esses top fãs e assim, aumentar a fidelidade ao canal.

- Consistência e redundância do formato e da linguagem são importantes para sustentar um canal no YouTube. Essa regra vale para o apresentador dos vídeos (caso exista). A redundância do formato também pode aparecer através de vinhetas de abertura dos vídeos ou pequenos blocos inseridos sempre no término de cada vídeo. A regra geral é: elementos que se repetem nos vídeos ajudam a criar uma identidade para o canal.

- Também é importante definir e manter uma periodicidade de publicação dos vídeos e quando possível, aproveitar eventos importantes para publicar um vídeo especial referente aquela data especial.

Estes são alguns dos principais fundamentos que os profissionais do Youtube recomendam aos seus parceiros de conteúdo, responsáveis pelos canais de maior audiência em todo o mundo.

No workshop ficou evidente que a especialização oferecida pelo Youtube, bem como a infraestrutura oferecida pelo YouTube Space - tanto de Los Angeles como dos demais que estão sendo implantados em outras partes do mundo - serão capazes de criar uma nova era de vídeos em que veremos não apenas vídeos virais dispersos pela rede, mas canais muito bem estruturados que poderão por si só servir como fonte de remuneração de toda uma equipe ou então, ganharem relevância suficiente para mais tarde, serem incorporados por uma emissora de televisão. Serão verdadeiros canais de conteúdo audiovisual para as massas. Sem dúvida, há um futuro promissor para os canais de vídeo online.


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Publicado originalmente no Update or Die, em 22/04/2014.

Sobre a conversa entre Itaú, Netflix, Ponto Frio, McDonalds e Coca-Cola no Twitter

Resolvi trazer para cá uma parte do registro da conversa que aconteceu na última terça (01/04). Sei que já vimos outros exemplos semelhantes, mas ainda assim, é um bom exemplo prático de toda a revolução que estamos presenciando no mundo da comunicação, da publicidade e do relacionamento com o consumidor.

Analisar o desenrolar da conversa ajuda a compreender um pouco do que se trata algo que estão chamando de "real time marketing".














A observação da "conversação" faz levantar muitas questões, as quais deixo aqui para sua reflexão:
- Qual estrutura é necessária para sua empresa conseguir responder com essa desenvoltura e imediaticidade?
-  Como desenvolver uma proximidade tão grande entre a agência e cliente para que os profissionais que atuam diretamente com as publicações possam ter segurança e liberdade para interagir dessa forma no Twitter?
- Quais cuidados agência e marca precisam ter quando citam outras marcas nas redes sociais? Por enquanto não há legislação clara a respeito, mas sabe-se que citar diretamente um concorrente numa peça publicitária não é usual no Brasil. Já nos EUA é bastante comum.
- Só é possível algo assim quando a presença digital das marcas envolvidas são administradas pela mesma agência ou agências parceiras?
- Ações assim são planejadas previamente ou foi tudo 100% espontâneo?


Acredito que muitas dessas questões ainda não possuem uma única resposta firmada, mas enquanto isso, ganham destaque as marcas que assumem o risco inerente de quem resolve sair na frente e inovar, como aconteceu com as marcas envolvidas nesse caso.


Campanhas que interferem no cotidiano das pessoas


Tenho dito que a publicidade que efetivamente causa impacto nas pessoas e consegue gerar repercussão realmente espontânea (não a repercussão forçada a partir de compra de mídia online) é aquela que consegue criar uma ponte de conexão com a vida das pessoas.

Afinal, somos uma sociedade já muito malhada pela propaganda. Ganhamos expertise suficiente para ignorar mensagens de propaganda. Para transpor essa barreira inconsciente, é preciso elaborar uma nova forma e roupagem para a mensagem publicitária. Ela precisa ganhar relevância como se fala por aí. Por isso campanhas que envolvem o conceito de branded content fazem bastante sucesso.

Para ir além, acredito que as campanhas precisam causar alguma interferência no cotidiano da sociedade. Seja uma interferência direta naquele que consome a mensagem, ou uma interferência que ele veja como benéfica para a sociedade. "Vivenciar experiências" é outro termo que já foi utilizado para designar algo bem próximo do que proponho aqui.

Num post de 2012 eu já falava disso de maneira hipotética. Desta vez cito aqui uma ação publicitária bem simples, mas que ilustra perfeitamente a ideia de ações que causam algum interferência na vida das pessoas.

Já não é tão comum ver no Facebook as pessoas comentando alguma campanha publicitária. Recentemente muitos usuários compartilharam de maneira completamente espontânea, um aplicativo que era parte de uma campanha do produto de limpeza Ajax. Foi desenvolvido pela marca para uma campanha na Australia, mas ganhou repercussão internacional.

Para reforçar o benefício da "limpeza", a marca criou um aplicativo que leva o mesmo nome do produto e promete ajudar o usuário a eliminar da sua timeline no Facebook e Twitter as mensagens de propaganda publicadas por outras marcas que no passado ele aceitou receber. A interface do aplicativo mostra a relação de todas as marcas que o usuário "curtiu" ou começou a "seguir" e ali é possível eliminar as marcas que ele não deseja mais acompanhar.

Ou seja, uma mensagem publicitária que busca oferecer um benefício real para o cotidiano do usuário. Abaixo o vídeo de divulgação do aplicativo.




A Samsung fez algo parecido e criou para os consumidores de celular (um de seus produtos) um aplicativo que tenta evitar acidentes de trânsito silenciando as notificações de mensagens enquanto o usuário está dirigindo:




Outra forma de ver essa ponte com a realidade é através do envolvimento de consumidores reais na construção da mensagem publicitária. Neste caso, o receptor da mensagem pode não realizar uma conexão direta, mas ele consegue ver nitidamente o impacto que aquela mensagem causou numa pessoa comum, como ele. É o caso da campanha muito comentada e compartilhada realizada pela Dove, "Retratos da real beleza".



Nos dois primeiros casos, a mensagem vem em forma de uma oferta de serviço (um aplicativo gratuito). Já na campanha da Dove o impacto vem através do caráter de documentário e/ou reality show do filme publicitário. Apesar de serem maneiras distintas, em ambos, nota-se o cotidiano de pessoas reais sendo modificados por estímulo do anunciante. 


Uma loja online onde homens são oferecidos como produtos


Logo após toda a polêmica sobre o aplicativo LULU - em que as mulheres podem categorizar e dar nota para os homens que fazem parte da sua rede de contatos no Facebook - chegou em casa uma carta "diretamente da França" com material de lançamento do portal adoteumcara.com.br; um site onde os homens são tratados como produtos e as mulheres podem "colocar no carrinho" aqueles que mais gostarem.

Em julho eu já havia antecipado aqui no blog o lançamento desse portal no Brasil. Estou curioso para saber como será a receptividade dos brasileiros. Porém, é preciso ser claro e salientar que o "Adote Um Cara" não se compara diretamente com a proposta do aplicativo Lulu.

"Adote Um Cara" é uma plataforma de relacionamento que promove encontros, como os já conhecidos parperfeito.com.br, eharmony.com.br e o br.match.com. Porém tanto a proposta quanto a linguagem visual são bem diferentes.

No "Adote Um Cara" são as mulheres que estão no comando da plataforma. Os homens só conseguem estabelecer contato com alguma mulher se ela colocá-lo em seu "carrinho de compras". Assim, a abordagem escolhida de "loja online" em que os homens são "produtos" é a forma descontraída encontrada pela plataforma para promover a aproximação de casais.

O foco da plataforma é atingir jovens entre 18 e 30 anos. Na França, onde a plataforma nasceu, já são mais de 7 milhões de usuários. Será que no Brasil ele consegue ganhar destaque entre os atuais portais de relacionamento? Tudo depende de como o público brasileiros vai encarar essa visão consumista do relacionamento amoroso.






Mais casos sobre exposição nas redes e panóptico social

Quem acompanha o blog, sabe que um tema frequente aqui é o questionamento sobre a atual "era da exposição" (nas redes) e aquilo que tenho chamado de "panóptico social", ou seja, a vigilância que a sociedade impõe a si mesma, dentro das redes sociais.

um outro post que trata desse assunto de forma mais reflexiva. Desta vez quero levantar casos práticos. Na última segunda-feira (09/12/13) duas notícias envolveram essas mesmas questões, porém de maneiras diferentes:

#01
Fotos da filha do ex-jogador Renato Gaúcho (Carol Portaluppi), completamente nua, foram expostas nas redes sociais sem a sua autorização. Provavelmente retiradas de seu celular, que foi roubado dias antes. Ela e a família estão sofrendo com a propagação espontânea de imagens não autorizadas, caso semelhante ao que sempre aconteceu com celebridades, mas que na era das redes sociais, ganha uma nova dimensão.



#02
A briga entre torcedores do Atlético-PR e Vasco no domingo (08/12/13) promoveu na segunda-feira uma reação já comum entre os usuários assíduos das redes sociais: uma corrida para identificar o perfil nas redes sociais dos envolvidos.

Ato bastante positivo sob o ponto de vista da participação e mobilização social, porém o Allisson Rafael, de Pernambuco, foi identificado erroneamente (brincadeira de um amigo) e em seu perfil, foi obrigado a prestar esclarecimentos para a enxurradas de pessoas que começaram a publicar mensagens de ódio contra ele.



Nesse caso da briga entre os torcedores dos times, é a sensação de colaboração com a justiça que move as pessoas a identificar infratores da lei nas redes sociais, porém, há aí um limite entre colaboração e efetiva aplicação da justiça.

Nas redes sociais, conseguimos identificar pessoas, talvez com uma agilidade até maior do que nossa polícia; e a rápida disseminação dessa informação, pode promover uma mobilização social contra essa pessoa, o que por sua vez, pode levar à realização da "justiça com as próprias mãos".

É preciso ter senso crítico e consciência, pois esse movimento levaria nossa sociedade à barbárie. Uma anarquia estimulada pelas redes sociais.

Maturidade em relação ao uso das redes sociais e consciência crítica sobre seus próprios atos é o que falta também no caso da Carol Portaluppi e tantas outras garotas que já tiveram fotos nuas expostas indevidamente na internet.

Casos assim podem levar à um movimento que hoje chamamos de bullying virtual ou cyberbullying e as consequências psicológicas podem ser incontornáveis, e em situações extremas, causando o suicídio da menina envolvida, como já aconteceu em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.

A falta de maturidade vem de ambas as partes. Daquele que promove a propagação das imagens pela rede, pois desconhece o alcance que a repercussão pode ter (e as possíveis consequências para a pessoa envolvida); e também das pessoas que armazenam fotos em celulares e computadores acreditando que ali tais imagens estão reservadas somente para sí, quando na verdade, qualquer imagem digital é passível de propagação nas redes, seja propositalmente ou não. Algumas vezes, um simples descuido de configuração dos aplicativos pode acionar a publicação da imagem na internet.

Como conclusão, vemos que fatos como esses dois que citei são recorrentes e estão longe de serem os únicos. São na verdade, consequências corriqueiras de uma sociedade ainda ingênua em relação à dinâmica das redes sociais e que está aprendendo e negociando os limites da exposição e do comportamento social nessas plataformas digitais.