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Propaganda da Vivara ou Hope?



Lanço aqui a hipótese de que a imagem aplicada nesse anúncio de jóias seria também perfeitamente adequada para uma marca de loungerie.

O nosso olhar, assim que aprendemos a ler e escrever, é condicionado a varrer uma imagem sempre de cima para baixo e da esquerda para direita. Dessa forma, o primeiro elemento que chama a atenção do olhar é o rosto da modelo. Essa é uma estratégia comum utilizada na propaganda, para gerar proximidade através da identidade com o público alvo. Após atrair o segmento que lhe interessa, a propaganda vai apresentar os demais elementos da mensagem, dentre eles o produto, claro.

Mas o fato é que toda imagem tem seu ponto de clímax, também conhecido como área de tensão. Esse é o local em que nosso olhar é direcionado após varrer rapidamente a imagem. No caso da imagem deste anúncio, a "tensão" é causada pela alça da loungerie que deixam o ombro e o decote mais evidentes.

Esse recurso oferece uma dinâmica à imagem, ao mesmo tempo em que traz à tona a sensualidade presente na cena. Essa sensualidade é intencional. É um signo que a propaganda quer aproximar do produto, quase como um diferencial que acompanha o produto.

Uma boa propaganda não precisa ter o produto aplicado no clímax da imagem. Isso é coisa do passado. Porém, quando o produto não está presente nessa área de tensão, é necessário ler/identificar outros signos para conseguir perceber qual é o produto desse anúncio, afinal?

O leitor mais atento logo saberá que se trata das jóias, seja pela quantidade delas que a Gisele Bündchen veste ou simplesmente pela identificação da logomarca no rodapé do anúncio.

Porém a reflexão que proponho aqui é: visto que o discurso da campanha é a sensualidade, outra categoria de produto que se encaixaria muito bem nesse anúncio é de roupas íntimas.

Sabendo que Gisele Bündchen possui uma marca própria de loungerie lançada em parceria com a marca Hope, se trocarmos a logomarca da peça, o anúncio continua tendo sua função mas claro, através de uma nova leitura.

A sensualidade da cena vai impregnar agora o novo produto, além de trazer outras impressões correlacionadas, como por exemplo, o conforto proporcionado pela delicadeza do tecido.

Abaixo uma montagem em que faço apenas a substituição das logomarcas para que você possa avaliar se o anúncio continua tendo sua função, porém agora para um outro produto.





O olhar mediado pelos dispositivos móveis


Cada vez que vou a um show ou vou conferir uma exposição fico impressionado ao notar como as redes sociais e os dispositivos móveis estão interferindo rapidamente em nossa cultura e na forma como vivemos essas experiências.  

O olhar mediado pelas telas e a compulsão pelo registro imagético não é novidade, mas o fato é que a cada dia surge uma nova página dessa história, trazendo novos aspectos. A supervalorização da imagem e a disposição pela exposição nas redes sociais tornaram a experiência de visitar uma exposição, algo completamente diferente do que já foi um dia. 

Não consigo mais visitar uma exposição e impactar-me apenas com a obra em si. Meu olhar se abre e fico atento não só à obra, mas também à perfomance do público entorno dela. Todos com suas extensões tecnológicas em punho, registrando e publicando insaciavelmente o que lhe aparece pela frente, sem dar atenção à pausa reflexiva que um leitor contemplativo costumava realizar quando em frente à uma obra artística.  

Na minha visão otimista, esse é um comportamento efêmero, típico desta nova fase de deslumbramento com as novidades oriundas das redes sociais. Logo passa. Porém reconheço que ainda assim, nada mais será como antes. 






 





A reclamação dos filhos agora é que seus pais não desgrudam do celular


Basta uma pesquisa de campo informal para notar: agora é a geração acima dos 45 anos que não larga do celular. 45, 50 ou 60 anos, não importa. Adultos completos. Não saem do celular. É o que ouço falar dos seus respectivos filhos.

Não quero dizer com isso, que os jovens abandonaram o mundo digital e jogaram fora seus iphones. Não, claro que não. Porém, eram eles - os jovens - acusados de uso exagerado das redes sociais e dos dispositivos móveis. Pois bem, vá num restaurante qualquer e observe os frequentadores com mais de 45 anos. É revelador. Não são – somente os jovens – que estão utilizando compulsivamente o celular.

Há nessa reflexão, dois pontos a considerar:

FATOR COMPORTAMENTAL – não podemos negar que nossa sociedade caminha para uma mesma direção, independentemente da idade que temos. Jovens, adultos ou idosos, estamos todos imersos – cada vez mais profundamente – numa sociedade em que a relação com o mundo se dá através da mediação da informática (faz tempo que você não vê essa palavra, hein?), em especial dos dispositivos móveis. Somos pressionados a atender todas os alertas e notificações que pipocam no celular, nos “wearable devices” etc. Em concomitância com outros fatores contemporâneos como o individualismo e o narcisismo exacerbado, acabamos por fim nos deparando com cenas um tanto incoerentes, como por exemplo, um casal jantando no restaurante, porém sem conversar entre si. Cada um atento ao seu próprio celular.

FATOR TECNOLÓGICO – parece-me que é fácil concluir neste aspecto que o surgimento de um novo meio de comunicação ou uma nova tecnologia da comunicação, obedece uma curva de adoção que invariavelmente atinge um pico em que é possível notar o uso exagerado da tecnologia e com o tempo, essa curva tende a descer até um ponto de equilíbrio. Esse comportamento se repete a cada geração, de acordo com a época em que ela foi adotada por aquele conjunto de pessoas. Em resumo: os jovens mergulharam na tecnologia e nas redes sociais mais cedo; alcançaram o pico da curva de adoção em que o uso excessivo causou um momento crítico e hoje é possível notar que os próprios jovens, discutem entre si os limites dessa relação. Chegaram até a inventar jogos que os proíbem de usar o celular quando estão juntos num bar ou na casa de um amigo. Aqueles que possuem mais de 45 anos, parecem passar agora por um processo muito semelhante.

Dentro dessa reflexão toda, é preciso considerar que o mundo caminha contra a possibilidade da “desconexão”. O crescente mercado dos “wearable devices” e da “internet das coisas” nos faz cada vez mais “conectados” e disponíveis para todas as variedades de “notificações” que as redes sociais e o “big data” podem oferecer. É preciso muita maturidade e senso crítico para viver nesse ambiente. Estamos prontos?


Crédito: Stephen McCulloch

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Publicado originalmente no "Update or Die", em 09/09/2014.