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Há algo de “Woodstock” na cultural digital

Como diz um amigo, o novo gesta-se do velho.


Um dos meus artigos publicados nessa coluna gerou mais feedbacks que o normal. “Jantares Inteligentes” era o título, homônimo de outro artigo no qual foi inspirado, escrito por Luiz Felipe Pondé. Meu texto falava de juniorização, cultural digital, geração Y e da hipocrisia do discurso.

Recebi mensagens de profissionais de agências dizendo que concordavam comigo; e que o cenário que pintei era real. Algumas agências estão repletas de jovens. Falta experiência.

Os jovens concordam. Esperavam ter alguém em quem se espelhar trabalhando ao seu lado. Pertencer à geração Y e possuir familiaridade com o mundo digital não garante autonomia e experiência profissional. Experiência leva tempo. Ponto.

Para piorar, jovens da geração Y (e provavelmente também aqueles que as agências de tendências estão chamando de geração D), foram criados com tanta liberdade e distanciamento dos pais que quando adultos, sentem-se perdidos, desorientados. Tornam-se profissionais imaturos.

As referências do passado estão se perdendo. Tem muito representante da geração Y anunciando que o digital -  e as redes sociais - são a solução do mundo e que foram eles – os jovens – responsáveis por inventar esse modelo de organização comunicacional e também socioeconômico baseado na colaboração, interatividade, sustentabilidade, etc. Pode isso, Arnaldo? Claro que não.

Depois da publicação daquele artigo, almocei mais algumas sextas-feiras com o pesquisador da contracultura, Martin Cezar Feijó. Falamos sobre a aproximação que fiz da cultura digital com a contracultura. Trouxe aqui algumas das reflexões.

É possível que a geração D não tenha mais referência do que foi Woodstock. Eu mesmo já recebi isso de segunda mão, através da televisão e relatos dos meus pais.

Ainda assim, o fato é que Woodstock foi um ótimo exemplo de mobilização, colaboração e propagação espontânea de informação. Um exemplo de como subverter os meios de massa para transmitir uma mensagem, ou mesmo de como conseguir comunicar algo para muitos, sem depender dos veículos de massa. Woodstock foi um celeiro para ideias que hoje estão na moda.

Não, não somos hippies, mas sementes foram plantadas, e algumas deram frutos, evoluíram. Apesar de empreendedores capitalistas, Steve Jobs e Stephen Wozniak aproveitaram e retransformaram valores da época para vender o “computador pessoal”. Depois vieram os criadores da rede mundial descentralizada, a internet. E agora Mark Zuckerberg vem representar mais uma geração destes revolucionários da sociedade da informação. É claro que os mais radicais nunca aceitariam qualquer aproximação entre a contracultura e empresas como a Apple. O ideal da contracultura talvez já não esteja mais presente, mas ele existiu, na sua origem, lá em Woodstock.

Assim, retomando o ponto de partida, hoje as pessoas da geração Y pensam que colaboração e compartilhamento são novidades impostas pelas redes sociais. Que nada. O meio digital apenas potencializou velhos conceitos; e agora demos novos nomes como crowdsourcing, crowdfunding, flashmob, etc.

Uma vez, disse um amigo, Vagner Matrone: o novo é velho. E outro, Rubens Fernandes Junior, complementou: o novo gesta-se do que é velho. É verdade. Afinal, todo novo meio de comunicação só sobrevive a partir da resignificação do conteúdo dos meios anteriores a ele (Marshall Mcluhan). Signo gera signo (Peirce).

Depois desse parágrafo de citações desenfreadas e teorias, passo para algo mais prático. Sabe por que são poucas as campanhas que aplicaram com criatividade novas tecnologias como a Realidade Aumentada ou o Código QR? Porque essas novas tecnologias ainda não foram plenamente decodificadas pelos publicitários. Precisamos misturar mais profissionais experientes com jovens digitais para resignificar nossa propaganda.

Pouco sabemos do potencial desse novo ambiente digital. Não podemos cair na armadilha de que o novo se basta. Nossa experiência adquirida não pode ser abandonada. Os jovens sabem bem disso. Eles não querem ficar abandonados, sozinhos nas agências, com um job para entregar amanhã.




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Publicado originalmente na coluna da edição impressa do jornal Meio e Mensagem, ano XXXIII, núm.: 1483, pág. 10. São Paulo: Meio e Mensagem, 31/10/2011.


Crédito da imagem:  Drew Chenelly