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Jantares inteligentes

No Facebook, somos todos iguais. As redes sociais padronizaram o meio.

Quem conhece o filósofo Luiz Felipe Pondé, já ouviu falar sobre os tais “jantares inteligentes”: encontros frequentados por artistas, jornalistas, antropólogos, sociólogos, filósofos, e claro, alguns médicos e advogados.

O que se entende, é que esses jantares são recheados por temas que agradam a elite, apesar de nem todos pertencerem à alta classe. Os participantes estão ali, pois como diz Pondé, aprenderam “três ou quatro frases que garantem a sua aceitação social”. Publicitários também são bem-vindos, mas “apenas aqueles que sabem falar mal da publicidade”.

Falar mal não quer dizer atirar no próprio pé. Provavelmente ele se refere a esses publicitários que costumam entoar por aí que a publicidade como conhecemos hoje é um cadáver ambulante, e que o mundo digital e as redes sociais são a salvação da propaganda. Porém no fundo, eles não fazem ideia de como funciona o Twitter ou o Foursquare.

São esses mesmos publicitários que resolvem a falta de habilidade da sua agência com o mundo digital de uma forma bem simples: “rejuvencendo sua equipe”. Mandam embora o diretor e contratam no lugar um gerente e dois estagiários que, se somados os salários dos três, não chega a alcançar o salário do antigo diretor. Reengenharia inteligente.

Em geral, o novo gerente não costuma ter mais do que 25 anos e a diferença com seus estagiários não ultrapassa três anos. São eles os responsáveis por criar “planos de comunicação inovadores” para os clientes da agência.

Como não há ninguém com experiência para aconselhar e ajudar a tomar decisões, esses jovens vivem ao mesmo tempo, um sentimento de poder (pois possuem a conta do cliente em suas mãos) e de abandono (não há ninguém para orientar e em quem se espelhar).

A experiência profissional não é mais transmitida a cada nova geração de publicitários. Os novos profissionais precisam aprender sozinhos e talvez cometer os mesmos erros que outros no passado.
Para fugir desse infortúnio, na falta de alguém mais experiente dentro da agência, buscam conselhos com seus antigos professores de faculdade; ou então, elaboram estratégias “colaborativas” que incluem na equipe da agência, um time de consultores formados por sociólogos, antropólogos e psicólogos. Uma forma sutil de assumir a falta de experiência profissional. Colaboração não é isso.

O fato é que nossos jovens publicitários, quando estudantes, imaginavam um dia trabalhar ao lado dos renomados e experientes publicitários. Depois que conseguem seu primeiro estágio, o que encontram é uma agência repleta de jovens inexperientes.

O mais irônico disso tudo é que muitas vezes, esses jovens dominam o mundo digital o tanto quanto aqueles publicitários que frequentam os jantares inteligentes. Quase nada.

Nascer no mundo digital permite uma habilidade natural com esse meio, mas não garante compreensão crítica suficiente para criar e produzir comunicação nessas novas plataformas de interação social.

Somos meros operários da tecnologia, como dizia outro filósofo, Vilém Flusser. No ambiente digital, desempenhamos apenas operações cotidianas. No Facebook, somos todos iguais. As mesmas páginas de perfil, com as mesmas informações, o mesmo conteúdo padronizado. As redes sociais padronizaram o meio digital.

Precisamos inovar essa padronização cotidiana do Facebook. Para garantir a liberdade criativa, Vilém Flusser acreditava ser importante observar e compreender a fundo determinado sistema, assim pode-se interferir em algum ponto do processo para gerar um resultado diferente. “A subversão do sistema é a chave para criação”. Essa frase provavelmente cairia bem nos jantares inteligentes do Pondé.

A propósito, apesar do amigo e historiador Martin Cezar Feijó, possivelmente responder que a aproximação com a Contracultura soa um tanto exagerada, é nela que mora o segredo para produzir comunicação na era das redes sociais (colaboração, compartilhamento, mobilização, etc). Don Tapscott (autor de Macrowikinomics) não concorda comigo, mas no final das contas, pouco importa se você nasceu antes ou depois do Twitter. #prontofalei


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Publicado originalmente na coluna da edição impressa do jornal Meio e Mensagem, ano XXXIII, núm.: 1475, pág. 10. São Paulo: Meio e Mensagem, 05/09/2011.