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A publicidade que valoriza o conteúdo

No livro Onipresente (2009) - faça download aqui - Ricardo Cavallini lembra um detalhe muito importante a ser considerado por aquele que pretende conhecer os meios de comunicação: antigamente era comum ouvir alguém dizer que iria "ver o que estava passando na TV", ou então "ouvir um pouco de rádio". Ou seja, escolhia-se o meio e não sua programação/conteúdo. É claro, a programação era critério de escolha, porém diferente de como fazemos atualmente.

Hoje já aprendemos a agir diferente, como o próprio Cavallini exemplifica, hoje escolhemos o conteúdo ao invés do meio. É comum ver alguém dizer que vai assistir Heroes (o seriado), ou seja, estamos em busca do conteúdo, independe qual será o meio.

Isso acontece por consequência da proliferação e convergência dos meios. É possível encontrar um mesmo conteúdo em diferentes meios. Assim, podemos ver Heroes na TV, mas também há o gibi, o game, o blog dos personagens, etc.

Porém não se trata exatamente do mesmo conteúdo, mas de conteúdos complementares para a mesma narrativa. É isso que Henry Jenkins chamou de transmídia em seu livro Cultura da Convergência (1).

A publicidade, já atenta para essa tendência, começa a desenhar campanhas em que o conteúdo é valorizado a tal ponto de atuar como complemento da narrativa proposta pelo anunciante. Explico: a publicidade já não divulga simplesmente. Ela cria ramificações, conteúdos complementares.


Essa semana entrou no ar uma ação de comunicação que exemplifica bem essa teoria.

O objeto de divulgação é uma exposição que a artista Sophie Calle montou em que o tema central é uma carta que receberá comunicando o término do seu relacionamento. A artista mostrou a carta para outros 107 artistas que foram convidados a interpretar a tal carta e todas essas obras reunidas formaram a exposição.

Para divulgar essa exposição, a agência Santa Clara/Nitro não criou apenas uma ação de comunicação, mas todo um produto complementar à exposição de Sophie Calle, e é aqui que aparece a transmídia. Foi criado um blog em que o visitante pode ler a carta e mandar a sua interpretação.

As melhores interpretações serão selecionadas para a próxima edição da exposição que acontecerá no Museu de Arte Moderna da Bahia.

Quer conhecer o projeto? Visite http://blog.sophiecalle.com.br.

Foto que faz parte da obra criada por Flavia Valsani como contribuição para o blog.


(1) JENKIS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo. Editora Aleph, 2008