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O índio e os smartphones

por Paula Zanardi (Mavens)


A cultura da humanidade está cada vez mais moldada pela tecnologia. Marcas como a BlackBerry e outras estão criando modelos de smartphones cada vez mais acessíveis e populares, mudando a maneira como nos relacionamos com o mundo. Quem não olha seus e-mails ou updates das redes sociais em seus celulares inteligentes ao acordar, que atire a primeira pedra.

A questão indígena no Brasil costuma ser um assunto delicado. Quando surge uma reinvindicação indígena – seja por demarcação de terras ou acesso aos seus direitos – a opinião do país se divide e o debate se inicia. Alguns questionam se seu acesso a cultura do homem branco é benéfica à esta minoria.

A partir do primeiro contato entre portugueses e índios pode-se dizer que nenhuma das culturas continuou a mesma. Os portugueses logo assimilaram a cultura indígena, pela comida com a mandioca e o biju (um biscoito feito de farinha de mandioca). A língua mudou e as palavras de origem indígena passaram a fazer parte do vocabulário brasileiro; abacaxi, capoeira, Ipanema, curió, tapioca, guaxe, igarapé. O hábito do banho diário também foi incorporado, e aqueles que não o praticam podem ser vistos com maus olhos no Brasil.

A cultura indígena também foi influenciada e modificada pelo contato, e continua sendo até hoje. O interessante é notar como as nossas tecnologias são aceitas e adaptadas dentro da cultura indígena. Os smartphones, por exemplo, foram incorporados e seu uso representa uma grande melhoria para algumas sociedades indígenas.

O povo Suruí localizado entre Rondônia e Mato Grosso, vive numa reserva de 248 mil hectares de floresta protegida. Sob a liderança do cacique Almir os indígenas foram capacitados pela Google para usar smartphones para captar fotos das madeireiras ilegais que derrubam árvores dentro da reserva, com o GPS do aparelho eles conseguem marcar a localização do crime e enviar os dados para a Polícia Federal e Funai.

Um outro uso dos smartphones em prol da cultura indígena é o que tem feito o pesquisador australiano Steven Bird. O professor da Universidade de Melbourne desenvolveu um software que permite gravar a língua e traduzi-la, como as línguas indígenas não se utilizam da palavra escrita o programa utiliza apenas ícones. Bird levou 15 smartphones para a Amazônia para registrar histórias tradicionais. Depois de gravadas o software traduz frase por frase para o português. CDs com cópias são deixados para a população local para uso nas escolas indígenas.

O vídeo nas aldeias é um projeto criado em 1980 que apoia as lutas dos povos indígenas por meio de recursos visuais. Trata-se de filmes e documentários co-produzidos entre indígenas e profissionais da área.

O projeto hoje se tornou uma ONG e seus filmes, além de formar um grande acervo, são reconhecidos internacionalmente. A popularização dos smartphones deu uma nova cara ao projeto, os equipamentos pesados passam a dar lugar aos celulares dos próprios indígenas, a produção de filme se tornou mais ágil, um registro do momento presente está constantemente ao alcance da mão.

O debate continuará a existir, a assimilação das culturas acontece no contexto brasileiro, interessante é notar como estas novas tecnologias estão alterando nossos comportamentos e dia-a-dia, inclusive no interior das reservas florestais, onde possibilita uma proteção mais eficiente do povo indígena, que se utiliza de câmeras fotográficas, GPS e internet. Quem diria?


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Contribuição da agência Mavens (Londres) para o blog e-Code. Artigo escrito por Paula Zanardi.
Imagem: Agência de Notícias do Acre