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#McLuhanFeelings: Estamos mais preocupados com o meio (Twitter) do que com o conteúdo

Essa semana comentei no Twitter como McLuhan continua na moda. Ele ficou famoso por afirmar que "o meio é a mensagem". Na época, era a televisão o meio de comunicação em evidência.

Com essa afirmação, McLuhan pretendia chamar a atenção para o poder que o meio tem de "modelar" a mensagem e por consequência, influenciar a cultura de toda uma sociedade. Hoje, olhando para trás (no tempo), é fácil observar isso. A sociedade da "era da televisão" tem características próprias que a tornam diferente da mais recente sociedade da "era digital". Antes éramos mais passivos na relação com o acesso à informação. Hoje por sua vez, somos mais "interativos".

Bom, mas quando fiz essa citação no Twitter, não era a isso que me referia. A afirmação de McLuhan permite ainda uma outra interpretação. "O meio é a mensagem" também fala de como o nosso olhar acaba se voltando para o canal de comunicação sempre que surge um novo meio. É o que parece acontecer agora com as redes sociais. Estamos, a todo momento, querendo "testar" o canal. Conferir se ele funciona. Assim como quando dizemos ao telefone: "Alô?".

Esse novo ambiente comunicacional é tema constante da sociedade. Nos bares e restaurante sempre há alguém para contar um "causo" do Facebook.

Quando alguma celebridade torna um fato público através da televisão ou da mídia impressa, diz-se apenas: "Você viu o que aquele ator disse?". Mas quando o fato é publicado nas redes, então o que se ouve é "Você viu o que aquele ator disse no Twitter?". Evidenciar o canal parace importante, sabe-se lá o porquê.

Tenho visto muitas ações de mídias sociais que acabam fazendo isso. Campanhas e promoções em que o Twitter chega a ter tanta evidência quanto a marca e o produto. Já por sua vez, o usuário/consumidor também acaba participando de repercussões "virais" (sejam elas positivas ou negativas); mais para conferir a capacidade de propagação da rede do que pelo engajamento real naquela causa.

O Ronaldo Entler (do blog Icônica) leu um artigo hoje no jornal Folha de S. Paulo e logo mandou um recado no meu celular, sugerindo a leitura. Fernando de Barros e Silva escreveu o artigo "Redes e Mamaços" em que aborda exatamente o assunto desse post. Resolvi reproduzir o texto, pois merece também a sua reflexão:

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Redes e "mamaços"

Cerca de 30 jovens mães fizeram um ato político anteontem, em São Paulo, ao amamentar seus filhos no saguão do Itaú Cultural. O "mamaço" (nome um tanto abrutalhado diante da cena singela) foi convocado pelo Facebook, depois que uma das mães havia sido proibida de amamentar seu filho no centro de exposições.

O movimento ganhou corpo, por ironia, depois que uma outra mãe teve retirada do Facebook uma foto em que aparecia amamentando. E, no final, o próprio instituto cultural acabou colaborando para que a manifestação fosse um sucesso.

Eis um ato em que os alvos do protesto (Itaú Cultural e Facebook) funcionaram, ao mesmo tempo, como "produtores" do espetáculo.

Ainda estamos conhecendo as possibilidades, o alcance e os paradoxos das chamadas redes sociais.
Há quem diga que o ativismo praticado pelas redes se define menos pelas causas que abraça do que pelas ferramentas que emprega; o vínculo entre os participantes seria débil, efêmero. É essa a opinião do jornalista Malcolm Gladwell, num ensaio famoso chamado "A revolução não será tuitada". As revoltas em curso no mundo árabe em boa medida desafiam esse diagnóstico.
Mas voltemos ao nosso quintal. Até o momento em que escrevo, estavam "confirmadas" 55.103 pessoas para o ato público convocado pelo Facebook, hoje à tarde, contra aqueles que se opõem à estação do metrô em Higienópolis. Mais de 50 mil pessoas! Mas quantos desses facebookers irão mesmo ao ato? -50%? 10%? 1%? Nem isso? Para quantos o próprio "ato" se resume ao impulso de apertar o botão sentado na cadeira e dizer "confirmo"?

Podemos, no entanto, inverter o raciocínio: quantos estariam simplesmente alheios a qualquer engajamento ou debate público se não fosse essa ferramenta tão à mão?

Estamos diante de algo novo: um espaço de comunhão e cacofonia, nem público nem privado, em que exibição confessional e política se misturam como leite no café.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1405201103.htm
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Para complementar o artigo do Fernando de Barros e Silva, deixo-os com um flagra do @luddista e outro da Patricia Zendron, feitos durante a tarde de hoje. E aqui vai um link com mais detalhes sobre os resultados no movimento #GenteDiferenciada, citado por Fernando de Barros e Silva.

Apesar do número de pessoas representar apenas uma pequena porcentagem dos inscritos inicialmente no Facebook, de forma alguma pode-se dizer que foi um fracasso. Muito pelo contrário. Sem dúvida será notícias dos jornais de amanhã, pois afinal, já é notícias agora, nas redes sociais.




Por fim, para quem tem a impressão de que os movimentos organizados pelas redes sociais não passam de uma "revolução de sofá", sugiro uma reflexão sobre essa outra imagem, publicada hoje também na Folha de S. Paulo. Trata-se da passeata contra o ditador do Iêmen. Vale pensar: qual importância tiveram as redes sociais para as recentes revoluções políticas como essa? Essencialmente no que se refere ao acesso à informação e mobilização social?



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[updated 16/05/2011] Novo artigo do Fernando de Barros e Silva
Nesta segunda, mais uma vez no editorial do jornal Folha de S. Paulo, o jornalista comenta o movimento "Gente Diferenciada", segue seu texto:

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Acompanhei o "churrascão da gente diferenciada" quase inteiro. Foi um protesto de estudantes e das classes médias (médias mais altas do que baixas). O povão ali era residual. Não pretendo tirar o brilho do evento, apenas caracterizá-lo. Havia muitos moradores de Higienópolis no meio das pessoas que gritavam "é a elite mais porca do Brasil".

Vi cenas curiosas: muitos cachorros "diferenciados" na coleira, entre os manifestantes. Pelo menos três golden retriever que decidiram ser "gauche na vida".

Dois "empreendedores" (assim foram chamados) vendiam camisetas com a inscrição: "gente diferenciada". Estavam no meio da avenida Angélica e, acredite, aceitavam pagamento em cartão de crédito. Seriam camelôs "diferenciados"?

O clima era festivo, performático. Alckmin e Kassab foram xingados (o prefeito até mais que o tucano), mas entre as palavras de ordem surgiam músicas como "Trem das Onze", de Adoniran, e a marchinha carnavalesca "Bandeira Branca". Havia lirismo e deboche nesse enfrentamento teatral de classes.

No final, perto de 21h, cerca de 150 estudantes gritavam: "Ei, polícia/ maconha é uma delícia". A PM estava claramente orientada a não contrariar os jovens. Comportou-se como uma babá zelosa. Como teria agido se o ato fosse na periferia?

Um amigo veterano da esquerda brincou que o protesto mais parecia um "playground revolucionário". Outro amigo, porém, disse que a manifestação -espontânea, desatrelada de partidos ou sindicatos- comunga do espírito de outros atos recentes, contra o aumento dos ônibus e o fechamento do Belas Artes.

Ambos parecem ter razão. Bem-humorado e anarquizante, o "churrascão" marca até aqui o ápice de um caldo de cultura novo, ou renovado, de mobilização progressista de parte das camadas privilegiadas. Em jargão, é uma fração de classe reagindo ao sentimento ostensivamente antipovo de representantes dessa mesma classe.
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