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O virtual como uma dimensão do real

Abaixo o artigo de um convidado especial, o professor Ronaldo Entler. Durante uma conversa, ele trouxe uma reflexão interessante sobre a construção de uma reputação baseada em retwits e opiniões alheias. Convidei-o a escrever esse post. é longo, mas vale refletir sobre o assunto:
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O virtual como uma dimensão do real

Nas redes sociais, as pessoas constroem representações de si mesmas. Nenhuma novidade. Fazemos isso sempre, seja em ambientes físicos ou virtuais, pois assumir papéis é parte desse jogo simbólico que chamamos de cultura. Eu enceno o papel de professor quando estou no trabalho, de marido quando estou em casa, de filho quando visito meus pais... São pequenos contratos que fazemos, não significa que somos falsos. Somos naturalmente virtuais, a somatória de “seres possíveis” que podemos representar. O virtual é a “capacidade”, uma “disponibilidade”, portanto, uma dimensão da realidade. Essas representações nas redes podem se construir de modo autêntico no embate entre uma expectativa que recai sobre nós e um potencial que temos verdadeiramente. A questão é: essas representações têm lastro?

Emprestando uma imagem da economia
O dinheiro é a representação de uma riqueza que, supomos, existe em algum lugar como lastro. Pode ser, por exemplo, uma quantidade de ouro guardada num cofre. Mas pode ser também o ouro que se espera ter, a partir de uma capacidade produtiva demonstrada. O dinheiro faz circular simbolicamente a riqueza que já se possui mas, também, o potencial de conquistá-la.
No capitalismo tardio esse potencial se torna mais importante do que a riqueza efetivamente acumulada. O que circula é basicamente a “promessa” de um valor. E o que sugere a disponibilidade desse valor? A própria circulação. É portanto um jogo tautológico, auto-referente. Quanto mais se confia na promessa, mais vale o papel: ao acreditar nele e comprá-lo, incremento tanto sua credibilidade quanto seu preço; daí, alguém compra de mim um pouco mais caro, e assim sucessivamente. No final das contas, o valor não tem a ver sequer com a promessa de riqueza, mas com a promessa da própria circulação do papel.
O problema disso nós conhecemos bem: de repente, alguém comete um deslize que abala a credibilidade de todo o sistema, a circulação emperra e a gente se lembra que o que temos na mão é só um pedaço de papel, sem lastro.

Redes sociais
Espera-se que toda representação tenha um lastro: uma assinatura num documento deve estar amparada na vontade de dizer aquilo que está registrado, notícia deve estar apoiada nos fatos, deve existir “alguém” por trás de um “perfil” criado numa rede social.
Esse perfil pode ser uma tentativa de descrever aquilo que se é ou aquilo que alguém acredita poder se tornar. É preciso diferenciar a idealização da mentira. As redes constituem um bom lugar para exercitar potenciais que, por razões várias, não realizamos em outros lugares. Desse modo, o que chamo de “perfil” não é apenas uma ficha cadastral, mas uma identidade que se desenha aos poucos nas capacidades que se realizam na própria rede. Essa pode ser uma experiência incrível. Ao colocar em circulação e confrontar pensamentos e experiências de muitos interlocutores, posso checar minhas idéias e crenças e, assim, produzir uma imagem de mim mesmo determinada tanto pelas influências que recebo quanto pelas minhas potencialidades. É possível ser mutante e ser autêntico, “tornar-se o que se é”, como disse Nietzsche.
Mas como manter um mínimo de consciência sobre essa representação? Isso exige a difícil tarefa de “checar-se” em pleno movimento das interações: o que acesso, a que me filio, a quem me conecto, o que digo, repasso ou indico, qual o percurso que meu nome e minhas manifestações tomam... Tudo isso constrói representações cada vez mais difícil de apreender, por conta da velocidade, da fragmentação e da dispersão das informações que faço circular. Mas, sobretudo, porque não há necessariamente uma identificação entre o que sou (mesmo potencialmente) e o que faço nas redes. Garantir o movimento é mais importante do que compreendê-lo. Ao contrário, tentar mapeá-lo pode resultar no pecado da desaceleração.
Também aqui a circulação se torna o próprio valor. Na média, o que vemos é uma situação em que não importa tanto confrontar meus esboços de pensamento com os de alguém. O que importa retransmitir uma informação assim que ela me chega, dar um retwit, reproduzir um post, criar um link, encaminhar uma notícia, sem precisar assumir responsabilidades sobre o que é dito. A reputação de alguém nas redes tem a ver com a capacidade de se tornar um nó importante, um multiplicador, um ponto de aceleração dessa circulação.

Crise de identidade
Quando buscamos um “perfil”, já não encontramos um rosto, uma identidade, uma opinião, uma ideologia, uma crença. Encontramos só um lugar de passagem de coisas muito variadas. Quando sigo, acompanho, me conecto a alguém nas redes, não preciso saber de quem se trata, é só uma questão de cerificar sua reputação pelo fluxo que consegue garantir. Internamente, o jogo funciona: você cumpre essa velocidade, conquista conexões, amigos, seguidores. É uma forma de poder, de capital conquistado, mas sem o referido lastro.
O problema surge quando alguém é testado naquilo que supostamente conquistou, quando alguém aponta para você e o requisita como indivíduo. As idéias transmitidas nesse fluxo não representam o sujeito em suas potências, o conjunto de seus “possíveis”. A identidade que resulta é amorfa. Sem o devido engajamento com aquilo que é dito, as informações são apenas pretexto para a circulação. Assim como seus papéis na bolsa, aquilo que supostamente se acumula pode não se transformar numa resposta efetiva na hora que você precisa dela.
Não é difícil perceber que muitos jovens padecem de uma falta de assertividade quando uma questão é dirigida a eles. Uma pergunta é respondida com um conjunto de outras perguntas tateantes, às vezes contraditórias, tipo “será tal coisa? Ou será tal outra coisa? Acho que deve ser assim. Ou não”. Uma fala desse tipo pode até parecer poética. Ou ética: não afirmar nada pode parecer um modo de garantir o respeito à opinião do outro. Mas é resultado de uma dinâmica em que as manifestações de um sujeito não são necessariamente uma tomada de posição diante das coisas, nem mesmo o ensaio de papéis potenciais.
Sem dúvida que há nas redes pessoas mais seguras e criativas. As metodologias que estabelecem parâmetros para atuar junto a esse público distinguem claramente alguns – uma minoria – que se destacam por produzir e veicular idéias próprias, pessoas que se tornam fontes, referências. Quando são sociáveis, ágeis e ligados nos temas em voga, são assediados pelas corporações e agências. Há outros que se destacam pelas conexões que acumulam e pelo poder que tem de difundir as idéias alheias. São importantes, acabam por merecer agrados. É possível lidar com eles por meio de estratégias promocionais, não é preciso sequer saber seus nomes. Mesmo que tenham alguma capacidade de seleção, este usuário se torna uma espécie de trabalhador braçal de uma atividade que deveria ser essencialmente intelectual: a comunicação. Por fim, esses métodos ainda distinguem uma massa desumanizada que funciona como o combustível, dando impulso a movimentos que não precisam compreender.
Não acredito que essa massa de jovens seja vazia, que não pense em nada, que não acredite em nada. Eles estão apenas apartados das linguagens que deveriam representá-lo. Eles têm dificuldade de encontrar uma imagem para si mesmo. O resultado é uma forma de violência. Seria absurdo culpar as redes pelo nível de incidência de síndromes emocionais, pânico, bipolaridade, bulimia etc. Mas vale observar certa sincronia. Por exemplo, o que é olhar-se no espelho e sentir-se gordo (quando se é um esqueleto), senão uma dificuldade em se ver representado no próprio corpo. O mesmo acontece com a própria fala, os próprios twits, posts...

Responsabilidade emocional
Aparentemente, o capitalismo está se esforçando para fazer uma crítica aos seus movimentos desenfreados. Cobramos das economias e dos mercados um desenvolvimento sustentável, garantindo a sobrevivência da natureza, da dignidade humana e das poucas riquezas que acumulamos com nosso trabalho.
Alguém ainda vai ter que se preocupar com a possibilidade de construir também em nossa comunicação um fluxo sustentável. Caso contrário, viveremos no plano emocional colapsos semelhantes àqueles que vemos no âmbito da ecologia, dos direitos humanos, da economia...
As possibilidades de comunicação trazidas pelas redes são uma benção. Ferramentas como Orkut, Facebook, Twitter garantem as conexões entre pessoas e a circulação das informações, e outras ferramentas conectam e compatibilizam as várias redes. Mas ainda falta algo que ajude a geri-las, garantindo a produção de sentido e seu vínculo com possíveis identidades.
Será que existe uma ferramenta capaz de dar um contorno ao perfil de um usuário da rede? Não uma ficha cadastral, tampouco uma demonstração estatística da reputação (quanto de informação, de conexões, de circulação...). Penso em algo mais humano. Assim como alguns serviços estão tentando identificar rostos em fotos, talvez elas pudessem detectar traços de emoção, personalidade, ideologia nas ações de um indivíduo nas redes, para dar um desenho mais efetivo – mesmo que em constante mutação – ao seu perfil. Por exemplo, deveria existir alguma coisa que me ajudasse a perceber que posso estar sendo contraditório quando defendo os direitos humanos e, ao mesmo tempo, ajudo a linchar publicamente um suspeito que ainda não foi julgado. Ou que me lembrasse que estou em consonância com esta ou aquela tradição do pensamento, quando transmito uma informação. Ou que me dissesse por onde passa aquilo que eu digo ou retransmito, mapeando não só os lugares, mas as idéias às quais meu nome se liga quando se perde na rede. Uma ferramenta mais ou menos do tipo: “me diga a que se conecta e eu te direi quem és!” Na prática, não dirá, mas ajudará a trazer um pouco de consciência às representações que posso construir, a dar lastro ao perfil que se forma a partir de minhas ações, ou permitirá uma correção de rumo quando essas ações parecerem contraditórias ou descoladas de meus potenciais.
E as empresas... Acho legítimo uma empresa perguntar a uma agência como comunicar um valor que, de fato, possui. Mas acho absurdo perguntar a uma agência que valor deveria ter. Como pode um valor nascer num brainstorm e, no dia seguinte, pertencer ao DNA da empresa? Valor é algo que se tem, talvez algo que se cultive, mas não algo que se encomende (ver artigo de referência). Ou seja, também as instituições têm pela frente questões sobre a sustentabilidade de suas identidades. Pelo menos, elas estão mais aparelhadas no que diz respeito às possibilidades de mapear as impressões que deixam rede afora.

Uma ponta de otimismo
Estou balizando minhas cobranças nas boas experiências que tenho encontrado nas redes. Este espaço é uma delas. Tanto no meu trabalho quanto nas minhas relações pessoais, a internet tem ocupado um espaço significativo. Encontrei interlocutores definitivos e fiz amigos de verdade. Um blog que comecei recentemente tem sido uma das experiências mais produtivas da minha vida.
Mesmo que eu recorra a um vocabulário conservador, gostaria de resgatar a noção de virtualidade das mãos de pensadores apocalípticos. O virtual é sim uma dimensão da realidade, assim como a rede é uma dimensão de nossa sociedade. Só é preciso não se perder nesse espaço e em sua nova velocidade. Em meio à pressão de tantos movimentos quase espontâneos, é preciso garantir também a expressão, isto é, os movimentos lastreados por uma consciência.

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Ronaldo Entler é professor da FAAP/SP na Faculdade de Comunicação e Marketing e Faculdade de Artes. Também é coordenador dos cursos de pós-graduação na área de Comunicação e Martketing. Graduado em Jornalismo pela PUC-SP, mestre em multimeios pelo IA-Unicamp, doutor em artes pela ECA-USP, pós-doutor em multimeios pelo IA-Unicamp. É professor visitante no Programa de Pós-Graduação em Multimeios do IA-Unicamp e desde 2006, tem realizado consultorias para desenvolvimento de pesquisa de tendências de mercado e branding.