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Nas redes sociais ainda somos adolescentes

O “panóptico social” está silenciando as redes e matando a “conversação” coletiva.


É comum ouvir por aí que as redes sociais evoluíram muito ao longo dos últimos anos, mas e nós? Evoluímos junto com as redes?

Costumo comparar nossa evolução nas redes com o desenvolvimento de uma criança. Quando surgiram as primeiras plataformas sociais, éramos livres de qualquer experiência, assim como uma criança pequena. Publicávamos de tudo, sem filtros. A conversa acontecia espontaneamente. Aprendemos e trocamos experiências com desconhecidos. Como num parquinho.

Nessa época achávamos que as redes sociais seriam a salvação da democracia. Ideia muito semelhante àquela de que o mundo seria melhor se fosse regido por crianças de pensamento puro. Ainda acredito que as redes sejam uma grande ágora virtual, porém não sou ingênuo. Nenhuma rede, por si só, é capaz de salvar o homem dele próprio.

Mas naquela época (poucos anos atrás) éramos crianças brincando na rede. Falávamos de tudo. “O que você está fazendo agora” era motivo para iniciar uma conversa e no meio disso tudo, respingavam centelhas de conhecimento. Boas ideias surgiram assim; e depois se transformaram em “start-ups” de sucesso.

Os anos passaram e nossa relação com as redes deixou de ser semelhante ao comportamento de uma criança. Passou a parecer-se mais com um adolescente. Daqueles revoltados e críticos em relação a tudo. Que acreditam serem donos do mundo, ditando regras de comportamento. O que pode, ou não, ser publicado nas redes.

Quando comentei esse assunto nas redes sociais em que estou presente, a Mariela Euzébio lembrou que essas “regras de conduta” têm inibido a participação de muitas pessoas que, por sua vez, passaram a atuar apenas como meros “ouvintes” das redes. Ou seja, criamos uma espécie de “panóptico social” que está silenciando as redes e matando a conversação. Se antes o “grande irmão” era o governo, hoje somos nós mesmos.

Outra característica desta nossa época: tudo o que é publicado tem a intenção de angariar novos “seguidores”. É por isso que a Rosana Hermann chamou de “era da intenção”. Há sempre um propósito por trás de cada publicação que, em geral, visa o status social.

Há, claro, diferenças entre as estruturas das diversas redes (Twitter, Facebook, Google+, Instagram etc) que acabam influenciando a sua dinâmica. A Ligia Pfeffer e o Fábio Maschi ressaltaram inclusive como a simplicidade do Twitter muitas vezes favorece a interação, apesar da limitação de caracteres. Por isso é muito utilizada pela televisão (a tal da “social TV”).

No Twitter, a troca pública e coletiva acontece com mais facilidade. Já no Facebook, sua estrutura prioriza a criação de “guetos”. "Seguir" no Twitter é o mesmo que "acompanhar" no Facebook, mas todos preferem "adicionar como amigo" e como consequência, restringem o círculo de contatos. Durante minha conversa aberta nas redes, a Elisa Pequini lembrou que “não precisa e nem deve ser assim.” Na visão dela, usuários das redes que só seguem amigos próximos desistem facilmente da rede. É bem possível.

Dito isso, acredito que chegamos num estágio em que mais do que analisar a estrutura de cada uma das redes, é essencial pensarmos que uso queremos dar para a ferramenta. O que afinal, queremos “potencializar” nas redes sociais?

Particularmente penso que não poderíamos deixar morrer a “conversação” coletiva das redes que foi prenunciada, ainda em 1999, pelo famoso “Manifesto Cluetrian”. É preciso evitar a inibição que essa onda do “panóptico social” causa nos usuários das redes.

Outro ponto que prezo muito é o espírito colaborativo, que é intrínseco às redes, mas muitas vezes é deixado de lado. É a colaboração que está movendo grande parte da revolução que vivemos na propaganda e também em outros mercados.

Foi inclusive para exercitar o poder colaborativo das redes, que realizei a seguinte experiência: construir esse texto que você lê agora, baseado nas conversas que estabeleci no Twitter, Facebook e Google+. As frases que aparecem nesse artigo eu publiquei nestas redes acompanhadas da hashtag #VaiProArtigo. A partir delas, estabeleci conversas coletivas com outros usuários que espontaneamente se motivaram a participar. Minha conclusão dessa experiência: nem tudo está perdido.

A proposta vai continuar. Quero desenvolver outros temas e contar com a interatividade das redes sociais e a colaboração dos seus usuários. Quem quiser participar é só “entrar” nas conversas identificadas com a hashtag #VaiProArtigo.


Crédito da imagem: Santea
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Publicado originalmente na coluna da edição impressa do jornal Meio e Mensagem, ano XXXIV, núm.: 1551, pág. 08. São Paulo: Editora Meio e Mensagem, 18/03/2013.