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A falsa evolução do olhar

Este primeiro post de 2009 nasceu de uma conversa com alguns amigos com quem passei a virada do ano. Lá pelas tantas, não me lembro mais se antes ou depois da meia-noite surgiu um papo sobre um argumento que o filósofo Nietzsche escreve no seu livro "Aurora". Ele diz que os gregos eram cegos para o azul e o verde. Na verdade o que o filósofo pretende é mostrar que os gregos não faziam distinção entre algumas cores pois utilizavam a mesma palavra para designar coisas que para nós possuem cores diferentes. Mas como? Será uma questão fisiológica? O olho dos gregos era diferente e menos eficiente que o nosso?

Não. Aparentemente é apenas uma falta de estímulo. Veja o caso dos esquimós; por conta da região que habitam, eles conseguem diferenciar com mais facilidade do que nós as diversas nuances da cor branca, possuem inclusive nomes diferentes para as tonalidades do branco. Assim, retomando o caso dos gregos, provavelmente naquela época a sociedade era pouco estimulada para as cores e com isso não se desenvolveu uma percepção visual para a diferenciação entre o azul e o verde.

Essa discussão fica mais interessante se acrescentarmos o fator da evolução tecnológica. Considere um meio como a televisão e analise a qualidade da imagem de algumas décadas atrás.

Na década de 60 a televisão tinha uma imagem com uma definição muito baixa. Segue um trecho do famosos Festival da Record de 1967 em que Chico Buarque canta "Roda Viva". Esse vídeo ilustra um pouco como era a qualidade da imagem na época.



Sem dúvida o telespectador da época sabia da baixa qualidade que a televisão oferecia, mas tenho a impressão que hoje ficamos ainda mais impressionados e definitivamente incomodados, exclusivamente pelo fato de podermos comparar com a qualidade da imagem dos dias de hoje. Se nosso olhar não tivesse acostumado com a qualidade atual, não nos incomodaríamos ao ver imagens da década de 60.

Efeito similar ocorre com a evolução da animação e dos efeitos especiais. Aproveitando o lançamento do filme "O dia em que a Terra parou" (2009) dirigido por Scott Derrickson, faça uma experiência e assista a versão original de Robert Wise (1951). É um tanto difícil deixar-se envolver pela narrativa, pois a todo momento ficamos impressionados com a falta de recursos e imaginando que na época os espectadores consideravam aquilo tudo muito realista (!!!).



Imagino também que uma criança, educada no mundo da animação digital, não envolve-se facilmente por desenhos animados mais antigos. Pois seu olhar já está acostumado a uma determinada qualidade de imagem.





A conclusão que quero propor então é a seguinte: observe que não existe, portanto, uma evolução do olhar. Ao menos não existe uma evolução fisiológica. Não foi o olho humano que evoluiu desde a época dos gregos. Foi o contexto ao nosso redor que mudou e com isso o olhar adaptou-se àquilo que acostumou-se a ver.

Nosso olhar está acostumado/adaptado/condicionado a ver imagens de determinada qualidade e por isso vai estranhar algo inferior a isso. E claro, também será impressionado com uma qualidade superior, mas logo irá assimilar e adaptar-se.

Observe também que os novos televisores de alta qualidade não existem por uma necessidade do nosso olhar. É pura lógica do consumo capitalista. Provavelmente estaríamos muito bem satisfeitos com os televisores preto & branco se não tivéssemos vivido a evolução tecnológica da imagem eletrônica.

Se você tem uma necessidade por uma televisão LCD ou plasma, HDTV, Full HD com 50", trata-se muito mais de uma necessidade de consumo do que uma necessidade da pecepção do olhar!

OBS: Fica aqui o agradecimento ao amigo Ronaldo Entler que colaborou com idéias e durante o desenvolvimento deste post.